Dicas e sugestões para o estudo e para as provas…

__________Preparei esta postagem para ajudar meus alunos no processo de aprendizagem e também para lidar de maneira mais construtiva com a famigerada semana de alucinacaoprovas. Tudo que vai aqui foi extraído do livro APRENDENDO A APRENDER, da Barbara Oakley (sugiro fortemente a leitura deste livro ou a realização do curso de mesmo nome no Coursera). Por enquanto esta compilação é um produto meio bruto e sem grandes lapidações. Com o correr do tempo, pretendo melhorar o texto e incluir dicas diferentes de outras fontes.

__________Mãos à obra, que as trombetas do Paraíso já estão tocando…


APRENDENDO A APRENDER

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A. ALERTA INICIAL
Não tenha ilusões românticas sobre estudo ∕ aprendizagem: não existe aprendizagem sem esforço e nem estudo sem dedicação.



B. DICAS DE APRENDIZAGEM

B1. Se você quer realmente melhorar sua memória e também sua capacidade geral de aprender, parece que uma das melhores maneiras de fazer isso é praticar exercícios físicos. Vários experimentos recentes com animais e humanos constataram que a prática regular de exercícios físicos pode melhorar de forma substantiva sua memória e capacidade de aprender. Os exercícios físicos ajudam a criar novos neurônios nas áreas relacionadas com a memória e também novas rotas de sinalização. Parece que diferentes tipos de exercício, correr ou caminhar, por exemplo, em contraposição a levantamento de pesos, podem ter efeitos moleculares sutilmente diferentes. Mas ambos, os exercícios aeróbicos e de resistência, provocam resultados igualmente poderosos sobre o aprendizado e a memória.

B2. Estudos recentes mostram que ler com um cérebro descansado durante uma hora é melhor do que ler com um cérebro cansado durante três horas. Além disso, vários estudos mostram que o sono é uma parte vital da memória e da aprendizagem.
Stickgold, R. e Ellenbogen JM “Quiet! Sleeping brain at work.” Scientific American Mind 19, 4 ((2008): 22-29.
Pessoas que têm o hábito de virar a noite trabalhando ou estudando na verdade são MENOS produtivas do que aquelas que geralmente fazem seu trabalho em intervalos de tempo razoáveis, não muito extensos.

B3. Lembre-se: pesquisas científicas já mostraram que quanto mais esforço você faz para se lembrar de um material de difícil recordação, mais profundamente ele se incorpora na sua memória. A recordação (repetição ativa), e não a simples releitura (repetição passiva), é a melhor forma de prática de estudo. Não se deixe enganar, portanto, por ilusões de competência: só olhar para o material que está na página à sua frente pode fazer você acreditar que já o dominou, quando, na verdade, isso não aconteceu.
[Karpicke, JD e Hoediger HL. “The critical importance of retrieval for leraning.” Science 319, 5865 (2008): 966-968.]
[Roediger HL e Karpicke JD. “The power of testing memory: basic research and implications for educational practices.” Perspectives on Psychological Science 1, 3 (2006): 181-210.]
Tentar se recordar do material que você está tentando aprender (a prática da recordação de informações) é muito mais eficaz do que simplesmente reler o material.
Karpicke, JD “Retrieval-based learning: Active retrieval promotes meaningful learning.” Current Direction in Psychological Science 21, 3 (2012): 157-163.

B4. As pesquisas científicas mostram que se você tentar guardar coisas em sua memória , repetindo-as cerca de vinte vezes em uma noite, por exemplo, isso não dará um resultado tão bom quanto se você praticasse o mesmo número de vezes ao longo de vários dias ou semanas. É a chamada repetição ESPAÇADA.
Carpenter SK et al. “Using space to enhance diverse forms or learning: Review of recent research and implication for instruction.” Educational Psychology Review 24, 3 (2012): 369-378.
Lembre-se: reler o texto só é eficaz se vc deixar passar algum tempo entre as releituras, de modo que elas se tornem um exercício de repetição espaçada. Tentar aprender tudo às pressas em umas poucas sessões não deixa tempo para que as estruturas neurais se consolidem em sua memória de longo prazo, e o resultado é uma pilha confusa de tijolos.

B5. Estudar em grupo é uma estratégia útil: você pode descobrir mais facilmente onde seu raciocínio enveredou pelo caminho errado, pois seus amigos podem indicar esses erros. Além disso, explicar o conteúdo do que você está estudando para seus amigos pode fazer você entender melhor o assunto. Mas o estudo em grupo só funciona se as pessoas forem transparentes em suas críticas e não ficarem com medo de “magoar” o outro. Interações agradáveis sem juízos de valor são menos produtivas que as sessões em que a crítica é aceita e até mesmo solicitada.

B6. “Simplificar também é importante. (…) Quando você valoriza explicações simples e divide o material mais complicado em seus elementos básicos, o resultado é que você tem uma compreensão mais profunda do material. (…) Você pode pensar que precisa entender alguma coisa para ser capaz de explicá-la. Mas observe o que acontece quando você está falando com outras pessoas sobre o que você está estudando. Você ficará surpreso ao ver quantas vezes você entende alguma coisa como consequência de tentar explicá-la para outras pessoas e para si mesmo, e não da explicação decorrente de seu entendimento anterior. É por isso que os professores muitas vezes dizem que a primeira vez que realmente compreenderam um assunto foi quando tiveram que ensiná-lo.”
“Na próxima vez que vc estiver com um membro da família, amigo ou colega de classe, relate a essência do que você está aprendendo. Contar o que você está aprendendo não apenas reforça e compartilha seu próprio entusiasmo, mas também esclarece e consolida as ideias em sua mente, para que você se lembre melhor delas nas semanas e meses seguintes. Mesmo se o que você estiver estudando for muito avançado, simplificá-lo para que você possa explicá-lo para pessoas com formação educacional diferente pode ser surpreendentemente útil na construção da sua compreensão.”

B7. ESCREVER À MÃO ajuda a fixar as ideias em sua mente mais facilmente do que se você tentar digitá-las. “Escrever ajuda a codificar (isto é, a converter em estruturas neurais de memória) mais profundamente o que você está tentando memorizar (parece haver uma memória muscular associada à escrita à mão).”

B8. Estude ou trabalhe em um problema difícil IMEDIATAMENTE antes de dormir.

B9. Escrever uma lista de suas tarefas mais importantes a serem cumpridas antes de ir dormir contribui para realizá-la no dia seguinte, ao acionar seu modo inconsciente de processamento.

B10. Pesquisas mostram que os alunos aprendem melhor quando eles próprios estão ativamente envolvidos com a matéria, em vez de simplesmente ouvir alguém falar.

B11. Uma boa regra quando você está aprendendo novos conceitos é não deixar as coisas paradas por mais de um dia.

B12. Faça os trabalhos mais desagradáveis e mais importantes assim que você acordar. Isso é incrivelmente eficaz.

B13. A persistência é mais importante que a inteligência. Lembre-se: Darwin foi um estudante medíocre. E revolucionou a ciência.

B14. É comum e normal ficar atrapalhado e confuso com novos conceitos e problemas quando se começa a estudá-los.

B15. Não desanime por não estar gostando de uma matéria. Nós adquirimos paixão por aquilo em que somos bons. O erro é pensar que, se não somos bons em alguma coisa, nós não temos e nunca iremos adquirir paixão por ela. Quanto mais você aprender e dominar um assunto para aplicá-lo, mais você vai gostar dele.



C. O QUE NÃO FAZER

C1. A procrastinção é a morte do sucesso. A melhor forma para lidar com a procrastinação é IGNORAR AS DISTRAÇÕES!

C2. “Quando você faz várias coisas ao mesmo tempo (trabalhar no modo multitarefa), você não é capaz de fazer conexões mentais ricas e completas, porque a parte do cérebro que ajuda a fazer as conexões está constantemente sendo chamada para uma nova tarefa antes que as conexões neurais possam se firmar. (…) Cada mudança de foco em sua atenção absorve um pouco de energia. Embora cada mudança em si pareça pequena, o resultado cumulativo é que seu esforço leva a um resultado muito menor. Você também não consegue se lembrar tão bem do que estudou, comete mais erros e tem mais dificuldade de transferir o que aprendeu para outros contextos. Pior de tudo, os estudantes que fazem outras tarefas ao mesmo tempo em que estudam (…) tiram notas consistentemente mais baixas.”
[“You’ll never learn! Students can’t resist multitasking, and it’s impairing their memory.” Slate, May 3 (2013). http://www.slate.com/articles/health_and_science/science/2013/05/multitasking_while_studying_divided_attention_and_technological_gadgets.3.html]

C3. Cuidado com as ILUSÕES DE COMPETÊNCIA. Não confunda processamento fácil com aprendizagem efetiva.

C4. Não use o computador durante seu tempo de procrastinação: isso é envolvente demais.




D. EM RELAÇÃO A PROVAS E AVALIAÇÕES

D1. Você não é a sua nota. Você é melhor do que isso. As notas são indicadores de como você administra o seu tempo ou simplesmente representa uma taxa de sucesso circunstancial.

D2. Notas ruins não significam que você não é uma pessoa inteligente.

D3. Estudar na véspera da prova e passar não é sinônimo de sucesso. Estudar tudo de última hora antes das provas é um jogo de curto prazo, com pouca ou nenhuma satisfação e resultados temporários, pois a aprendizagem é superficial e facilmente perdida. A aprendizagem é um jogo de longo prazo com grandes recompensas na vida.

D4. Pesquisas mostram que as provas, em si mesmas, são uma poderosa experiência de aprendizagem. Elas alteram e aumentam o que você sabe, além de melhorar muito sua capacidade de reter o material. Isso parece ocorrer porque fazer provas fortalece e estabiliza os padrões neurais relacionados em seu cérebro.
[Dunlosky, J et al. “Improving student’s learning with effective learning techniques Promising directions from cognitive and educational psychology.” Psychological Science in the Public Interest 14, 1 (2013): 4-58.]



E. UM PUXÃO DE ORELHA…
“O que você diz ao aluno que procrastina, mas se recusa a aceitar sua própria responsabilidade e, em vez disso, culpa tudo e todos, exceto a si mesmo? Ou o aluno que é reprovado em todas as provas, mas acha que ele sabe a matéria melhor do que as suas notas indicam?

- “Se você constantemente se vê em situações nas quais você pensa ‘não é minha culpa’, algo está errado. Em última análise, você é o capitão do seu destino. Se você não está obtendo as notas que gostaria, você precisa começar a fazer mudanças para navegar para melhores paragens, ao invés de culpar os outros.”

- “Vários alunos me disseram ao longo dos anos que “realmente sabiam o material”. Eles eram reprovados apenas porque não eram bons em fazer provas. Muitas vezes os colegas de um desses alunos me contam a verdadeira história: o aluno não estuda nada ou estuda muito pouco. É triste dizer que a autoconfiança injustificada na própria capacidade às vezes podem atingir níveis quase delirantes.”

CASO CLÍNICO 1

. . . . . . Pessoal, a coisa vai funcionar assim: fiz abaixo um breve resumo de um caso cínico publicado em periódico científico, adaptando algumas informações para deixá-lo coeso e enxuto. Abaixo desse resumo há uma série de perguntas que vocês devem ser capazes de responder. Respondam (se quiserem) na forma de Image (2)comentários. Quem acessar o blog não deve clicar no link “comentários” antes de redigir suas respostas (óbvio). Daqui uma semana eu vou olhar as respostas, fazer comentários e postar o link do artigo original. Não sei ainda se este é um formato interessante. Vamos tentar. O site que eu havia citado no Facebook (Class Marker) não funcionou como eu gostaria e, portanto, ele acaba de ser abandonado no vale das sombras do esquecimento. Há uma coisa que seria muito útil vocês fazerem: tecer comentários sobre este modelo de interação. Talvez um blog não seja o ideal, talvez alguém tenha alguma ideia diferente e mais interessante. Conto com vocês.

CASO CLÍNICO 1
Uma fêmea de Cocker Spaniel Inglês de 5 anos apareceu no Centro Médico Veterinário Lloyd da Iowa State University com uma história de 7 dias de vômito, inapetência, e letargia. Quatro semanas antes, a paciente foi diagnosticada com miosite mastigatória e recebeu tratamento de azatioprina e prednisona diariamente em dose imunodepressiva. Três semanas depois deste tratamento, desenvolveu claudicação na pata traseira esquerda e vômitos intermitentes. O caso continuou a se agravar, apesar do tratamento de suporte. No exame físico, a paciente estava ansiosa, mas com sinais vitais normais e nenhuma anormalidade na auscultação. A paciente tinha dificuldade crescente de se levantar do chão, mas os sinais óbvios de dor não foram induzidos à palpação do membro afetado. A paciente vomitou uma vez enquanto estava na sala de exame; não foram detectadas outras anormalidades ao exame físico. As radiografias abdominais revelaram hepatomegalia generalizada e leve derrame abdominal. Uma abdominocentese guiada por ultrassom foi feita e amostras do derrame foram coletadas para citologia e cultura. A citologia do derrame revelou 96% de neutrófilos, com alguns poucos macrófagos e monócitos. Em alguns pontos havia conjuntos de neutrófilos circundantes a hifas septadas. Os donos do paciente decidiram não tentar mais nenhum tratamento e o animal foi eutanasiado e submetido à necrópsia. O fígado estava difusamente pálido e havia numerosos pontos proeminentes piogranulomatosos na sua superfície (0,3 cm de diâmetro). Focos similares foram notados na parede da vesícula biliar, na superfície serosa do estômago, paredes do coração, ao longo de ambas as cavidades pleural e peritoneal do diafragma, além dos rins, adrenais, tireóide, esôfago, diafragma, fígado, baço, intestino delgado, nódulos linfáticos mesentéricos e pâncreas. Esses piogranulomas muitas vezes continham numerosas hifas moniliformes, septadas, com paredes paralelas e estruturas globosas lateralmente às ramificações (conídios – aleuriósporos).

PERGUNTAS:
1. De que grupo de microrganismos trata-se o caso clínico acima?
2. A característica de citologia citada é coerente ou não com esse grupo de microrganismos?
3. Quais as provas a serem feitas para confirmar a suspeita do item 1?
4. Há alguma maneira da primeira abordagem terapêutica feita (azatioprina e prednisona) se relacionar com o quadro clínico em questão ou foi apenas um equívoco de diagnóstico?
5. Qual a principal resposta imune que combate esse grupo de microrganismos?

Cursos virtuais, tamanho da audiência e a cacofonia dos achismos

__________Estou fazendo meu terceiro curso virtual (“Foundations of Virtual Instruction”) na Universidade da Califórnia e tenho achado a experiência muito interessante. Já tive a oportunidade de comentar sobre esses cursos antes (http://forum.microbiologia.vet.br/index.php/cursos-gratuitos-pela-internet/). Agora que fiz 3 deles, acho útil listar alguns dos aspectos NEGATIVOS que encontrei.

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__________Se você está fazendo um desses cursos, saiba que você está basicamente sozinho. No primeiro curso que fiz (“Pense Melhor: Como Raciocinar e Argumentar”), o professor foi claro: não respondia e-mails. Compreensível, pois o curso tinha 240.000 alunos! Vale o ditado: quanto maior a audiência, menor o repertório. Nesse mesmo curso tive um problema operacional com alguns arquivos; escrevi para um e-mail do COURSERA relatando a dificuldade (isso depois de ter lido as FAQ e a ajuda). A resposta (automática e padronizada) ajudou tanto quanto um copo de água morna ajuda a emagrecer: simplesmente me remeteu ao que eu já havia consultado e não encontrara resposta alguma. No atual curso, a experiência foi ainda pior, pois eu nem esperava qualquer interação individual. Um dos links do curso estava “quebrado” – ou seja, não abria. Escrevi no fórum relatando o problema e perguntando se mais alguém passara por isso, na expectativa de que a instrutora do curso ou um dos 6.000 participantes dessem uma resposta que ajudasse. Estou esperando a resposta até hoje. Há poucos dias fiz uma nova tentativa nesse fórum, respondendo a uma pergunta da instrutora e perguntando aos participantes se alguém já havia passado por uma situação de aula específica. Também fiquei sem resposta alguma. Bom, talvez minha resposta e minha pergunta não fossem interessantes. Resolvi fazer uma avaliação estatística do fórum. Aproximadamente 60% das postagens ficam sem resposta. E, lendo as colocações, tive a sensação de que essa é uma tribo com muito cacique e pouco índio. Todo mundo querendo colocar o que acha ou falando de algo muito pessoal e poucos interagindo. Entre um suspiro e outro, veio-me a definição desse recurso: “cacofonia de achismos”. Perdi muito tempo lendo coisas que não traziam informações relevantes; apenas serviam para cumprir uma espécie de função psicológica de dar a impressão de a coisa era colaborativa. Por enquanto, foi só espuma. Vamos ver como a coisa se desenrola até o fim.

Anti-dica de ensino

__________Há uma passagem na obra de Conan Doyle em que Sherlock Holmes diz que, além de prestarmos atenção aos cães que ladram, devemos prestar atenção aos cães que NÃO ladram. Essa colocação é muito inteligente e constitui um dos alicerces da boa semiologia clínica e da arte de observar. Eu costumo fazer postagens sobre “os cães que ladram”: livros de ensino que são geniais e nos enchem os olhos (e a cabeça) ao percorrermos suas páginas e capítulos (por exemplo, o “DICAS DE ENSINO”: http://forum.microbiologia.vet.br/index.php/sobre-o-livro-dicas-de-ensino/). Quantas ideias, sugestões e inspiração tiramos de livros bons como esse! Mas em certos momentos é preciso falar também dos cães que não ladram.

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__________Hoje, enquanto esperava meu carro da lavagem de um posto (a espera seria muito longa, de acordo com o frentista), peguei um novo livro sobre ensino para ler. Estava curioso, pois foi uma sugestão de uma das minhas chefes e o tema era muito interessante. Infelizmente, antes do final do dia eu especulava o que faria com ele (nem o mais atroz dos livros merece o lixo como destino). Não é agradável ficar tecendo críticas a um autor, mas é necessário. Tivesse eu encontrado uma resenha antes, teria poupado tempo, dinheiro e trabalho. O livro em questão se chama “COMO SE APRENDE”, de Evelise Portilho, editora Walk, 2ª edição.

__________As coisas começaram mal: um prefácio escrito em um estilo tortuoso, privilegiando acrobacias retóricas ao invés do estilo direto e claro, e sem grande profundidade de análise. Abortei sua leitura e parti direto para a introdução; logo percebi que essa amostra inicial tinha significação estatística, pois o livro inteiro tinha um texto pouco fluido, com vários trechos que nos forçavam a voltar duas ou três vezes na leitura para conseguir entender o sentido.

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Uma narrativa prolixa e pouco elucidativa de muitas teorias de aprendizado ocupa a primeira metade. Na segunda metade, resolvi ler por amostragem (a fila de carros antes do meu encurtava rapidamente). Pincei trechos aqui e acolá e a impressão negativa se repetiu. Boa parte das vezes o estilo turvo parecia querer disfarçar frases que não tinham grande conteúdo (a descrição da aprendizagem significativa podia servir de modelo de como falar muito e não dizer nada). Descrições maçantes centradas em palavras de efeito, em sentenças circulares que ora diziam o óbvio, ora reforçavam esse óbvio, ora discursavam generalidades e platitudes de pouca utilidade. Para quem está buscando informações relevantes, atualizadas e aplicáveis nos processos de ensino-aprendizagem, o livro é um balde de água fria.

__________Acima de tudo, um livro chato, que se lê como se estivéssemos nos arrastando por um asfalto muxibento, torcendo pelo seu fim.

__________Mas há duas coisas positivas que extraí dele: um questionário no final deu um ideia modesta de como abordar o tema de métodos de estudo com os alunos. A outra foi que ele me fez lembrar do famoso dito de Dom João VI: “Se não saber o que dizer, não digas nada.” Algo que procuro aplicar a mim mesmo.

__________Meu carro ficou pronto ao mesmo tempo que eu encerrava minhas expectativas com relação a esse livro.

Sobre terapias alternativas milagrosas e credulidades perigosas…

__________O Dr. Luís Fernando Correa, comentarista da CBN, tratou hoje de terapias alternativas, câncer, embuste e os perigos da credulidade. Excelente PodCast! Clique na seta abaixo para ouvi-lo. Aproveito para deixar uma dica de leitura aos meus alunos: O MUNDO ASSOMBRADO PELOS DEMÔNIOS, do Carl Sagan. Resumo da cabecinhaimportância que atribuo a esse livro: é um dos meus grandes livros de cabeceira. Em 23 anos de docência em que sugiro sua leitura, acho que apenas 3 alunos realmente embarcaram nesse livro incrível. Uma pena. Mas fica a dica…

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A valiosa e necessária empatia: se colocando no lugar do outro.

__________Muito tempo atrás postei este vídeo para meus alunos de medicina no Facebook, mas como a empresa do Zuckemberg tem o péssimo hábito de sumir com nossas postagens sem nos consultar, resolvi publicar no meu blog.

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__________O vídeo trata da necessidade de se humanizar o tratamento médico de uma maneira muito poética e comovente. Pude sentir a importância disso quando vivenciei o Rondon com os alunos de Jundiaí. A coisa mais preciosa não foram as ações boas que levamos para lá, que são sementes difíceis de acompanhar e mensurar, mas o efeito nos alunos. Acho que voltaram pessoas melhores e mais sensíveis para viver a empatia com os outros, especialmente com seus futuros pacientes. Nesse ponto, o Rondon do século XXI foi muito sábio em colocar que o foco do programa não são as populações atendidas, mas os alunos que participam do projeto. O que eu havia estranhado um pouco no início ficou claro para mim no final da viagem.

__________Segue o vídeo, que sempre me comove quando eu assisto.

Leitura de férias: CÉREBRO & CRENÇA, uma viagem deliciosa aos porquês da credulidade.

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__________CÉREBRO & CRENÇA, um livro surpreendente. Seu autor, Michael Shermer, é editor da revista SKEPTIC, e aborda aquilo que para mim é um dos assuntos mais interessantes que

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existem: a explicação neurofisiológica da crença.  Astrologia, quiromancia, bruxaria, discos voadores, tratamentos alternativos estapafúrdios,  fantasmas, espíritos… a lista é interminável e potencialmente explosiva,  se encaixarmos as diferentes religiões. Os dois primeiros terços do livro são um primor ao dissecar as últimas descobertas da neurofisiologia relacionadas à credulidade e ao cepticismo. O terço final acaba se dispersando um pouco mas a finalização (Deus existe? Essa pergunta é pertinente?) é muito interessante e instigante. Uma leitura que vale cada linha.

Entre o céu e o inferno

__________Mesmo professor, mesma metodologia, mesmo assunto… e duas aulas COMPLETAMENTE diferentes.

__________Uma, penosa, desgastante, sofrida; as pessoas são impassíveis, não perguntam, não reagem, não riem, não fazem colocação de espécie alguma. Vários ficam usando o celular de forma descarada, rindo alto e conversando, como se vc não estivesse ali; outros conversam elasmossaurocomo se estivessem no boteco da esquina. Ninguém tem dúvida nem certeza, exceto talvez de que não quisessem estar ali, a julgar pelos bocejos, pelas bufadas de saco cheio, pelas expressões de fastio. Poucos se destacam, e mesmo esses se contagiam com o clima de alheamento que parece ser o DNA desse grupo. Diante disso, reza-se pelo final da aula, que vem de forma antecipada, antes do horário, como se nosso inconsciente, desesperado para livrar-se de tamanha provação, abreviasse frases, acelerasse o ritmo da fala, ignorasse curiosidades, acréscimos, adendos, aplicações.

__________A outra, um espetáculo didático em que grande parte do tempo é a turma que dita o ritmo da aula, participando intensamente, interessada, curiosa, motivada, fazendo perguntas, contando animada sobre o que viu no jornal ou na imprensa acerca do assunto. Quando a gente vê, o horário já deu e ainda estamos falando – e parte da sala ainda fica ali, sem debandar com seu material. Tanto se falou, debateu e se trocou, num clima afetivo, cordial e criativo, que uma aluna, ao se despedir quando todos já haviam saído, faz uma síntese: “Que aula deliciosa! Uma das melhores do semestre!”

__________A diferença entre esses dois extremos absurdamente díspares não foi o professor, a vista da janela, a consistência do giz ou a quadratura da lousa. Foi a TURMA. Essa confrontação ajuda a dissolver o pedagogês demagógico de “centrar” a aula aqui ou acolá. Sem professor não há aula; sem turma não há aula. Simples assim. O processo de aprendizado envolve AMBAS as partes e ambas são responsáveis pelo resultado final. É dessa interação que nasce o inferno ou o céu. Eu vivi isso esta semana de forma tão extrema que parece coisa sobrenatural, como que para mostrar para um incrédulo como eu a força que o mágico contraste tem na existência.

__________Turmas são como safras, já disse um professor em um artigo da Folha de São Paulo. Há as boas, as médias e as ruins. O que explica essas diferenças? Talvez misteriosas conjunções astrológicas. Talvez a microbiota do solo. Talvez a radiação dos quasares. Nunca ninguém chegou perto de decifrar esse enigma. Mas ele está aí.