Há uns dias atrás tropecei com uma notícia do UOL sobre o doutor Bactéria. Segunda a notícia (um vídeo), a sola de sapatos estaria mais limpa do que os nossos celulares. O vídeo pode ser conferido no link http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/ultnot/multi/2011/09/13/04020E1A3668D8812326.jhtm). Digo tropecei porque ela me chamou muito a atenção e provocou o meu espanto. Esse dado que ele obteve contradiz dados informais de muitos anos e até conceitos bem consolidados da microbiologia. Uma das maiores fontes de microrganismos que temos é o solo. Solas de sapatos estão em contato contante e sistemático com ele. É natural que a carga microbiana delas seja elevadíssima. E é exatamente isso que constatamos quando se coleta material desse local. Vários alunos meus ficam chocados ao verificar tanto crescimento microbiano que, às vezes, leva as placas a serem lacradas, pois a exuberância dos microrganismos corre o risco de “transbordar”. Já os celulares, que também foram motivos de coleta muitas vezes, apresentam sempre uma carga microbiana muito inferior, mas perfeitamente coerente com o uso normal. Encontrar um celular com carga microbiana MAIOR do que a sola de um sapato é, NO MÍNIMO, estranho*. Na minha vida de microbiologista, com quase 20 anos de observação, nunca vi dado semelhante – embora os celulares tenham entrado em uso mais intensivo nos últimos 10 anos. Fiquei com a impressão que o Doutor Bactéria – que tem méritos por ter colocado a MICROBIOLOGIA na pauta da ciência popular – quis criar um “Factóide microbiológico”. Factóide é um termo empregado na política quando determinados políticos pegam algum fato inexpressivo ou comum e conseguem manipulá-lo de forma a torná-lo um furo de reportagem – apenas aparente, diga-se de passagem.
Ao comentar isso com meus alunos, ouvi uma observação bem humorada e criativa que poderia explicar esse dado incongruente: talvez a comparação tenha sido feita entre um celular com um aplicativo do tipo Au-au Phone, que transforma seu celular num cão de estimação. Sim, você baixa um aplicativo que faz seu celular latir; aí, amarra uma coleira nele e o leva para passear. Nesse caso, sim, um celular poderia ter uma carga microbiana maior que uma sola de sapato!
Confesso que essa era uma hipótese que eu não havia considerado.
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* Ainda que isso fosse verdade (como “verdade”, penso num dado consistente que se repete em várias medições para ter alguma relevância), ele se esqueceu de que uma avaliação microbiológica deve sempre levar em consideração o aspecto QUANTITATIVO (o que foi avaliado) MAS TAMBÉM QUALITATIVO – que tipo de microrganismos foram encontrados. Encontrar esporos de Clostridium botulinum (agente do botulismo) no jardim de casa é normal, mas não em uma lata de patê da geladeira.
Foi lançado recentemente um portal que divulga artigos científicos sobre educação, o Educ@. É uma parceria da fundação Carlos Chagas e o SciELO (portal de periódicos científicos gratuitos envolvendo vários países da América Latina: http://www.scielo.org). Há apenas 9 periódicos listados, mas a tendência é a lista crescer. O bom é que, antes de serem incluídos, os periódicos passam por uma avaliação, o que garante certa qualidade aos títulos compilados. Uma iniciativa muito bem vinda, semelhante, grosso modo, ao ERIC. O site do Educ@ é http://educa.fcc.org.br e o do ERIC é http://www.eric.ed.gov/ A fonte dessa informação veio do Estadão: http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110711/not_imp743279,0.php
Sim, essa é a ideia de HARALD ZUR HAUSEN, infectologista alemão, famoso por ter contribuído para a ligação entre o HPV (paipilomavírus humano) e o câncer de colo de útero (cervical) nos anos 80.
Segundo ele, o cozimento da carne não seria suficiente para inativar certos tipos de poliomavírus (um vírus “primo” do HPV e que pertence à mesma família, Papovaviridae). Isso parece fazer algum sentido, pois os papovavírus não são envelopados e, por isso, são resistentes no meio ambiente. A famosa carne crua ou mal passada sustentaria essa parte da hipótese do infectologista alemão.
Para ele, cânceres de pulmão, mama e intestino pdoeriam estar relacionados com esses vírus.
Isso pode soar estranho, a princípio, mas segundo ele, há uma forte correlação entre consumo de carne bovina e predisposição a câncer de intestino, por exemplo. E aparentemente isso não estaria relacionado a componentes da carne bovina, que também são encontrados em outras carnes, como suína, caprina e ou de frango, que também são submetidas ao cozimento ou fritura.
Talvez ele esteja certo. Há 30 anos não se imaginava que úlceras e câncer de estômago poderiam ter causa infecciosa, e hoje isso não só é consenso como o agente relacionado com esses quadros (Helicobacter pylori) parece explicar a maioria deles.
Infelizmente a reportagem da Folha é de acesso restrito (Caderno SAÚDE de 28 de junho de 2011). Mas sugiro a vocês que busquem pelo nome desse médico alemão para achar artigos relacionados. Uma busca no PUBMED também pode ser interessante.
Há semanas que não param de sair notícias sobre o surto de infecção por Escherichia coli entero-hemorrágica na Europa. Mais de 40 mortes e centenas de infectados, muitos com sequelas permanentes. Esse surto está maior do que o da Escócia, que aconteceu alguns anos atrás e matou por volta de 25 pessoas. Como o surto continua e toda semana aparecem notícias novas, é interessante acompanhá-lo por sites como o da Organização Mundial da Saúde (http://www.euro.who.int/en/what-we-do/health-topics/emergencies/international-health-regulations/ehec-outbreak-in-Germany) e do CDC (http://www.cdc.gov/ecoli/2011/ecoliO104/).
Para quem quiser saber um pouco sobre o surto da Escócia, que ocorreu nos anos 90, basta acessar o site da FAO: http://www.fao.org/docrep/MEETING/004/X6925E.HTM
E hoje saiu uma suspeita de que a cidade de Campinas pode ter os primeiros casos dessa linhagem de bactéria por aqui:
http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,campinas-registra-duas-suspeitas-de-contaminacao-pela-bacteria-ecoli,736617,0.htm
Sim, eu já havia sentido o gosto da inteligência artificial com o mecanismo de busca do Google por voz e um aplicativo do IPhone que busca músicas na rede a partir de pequenos trechos. Mas senti de novo hoje. E tenho a impressão que será cada vez mais recorrente.
Agora o Google lançou um mecanismo de busca por imagens (na tela do Google imagens, há um ícone de máquina fotográfica à direita da barra de busca; clique ali para experimentar). Ao invés de você digitar uma palavra, você manda a sua imagem para o Google e ele te lista as imagens da rede mais “parecidas”. Achei o recurso incrível, inclusive pela sua aplicação em diagnóstico. Para vocês entenderem melhor: identificação de fungos filamentosos (bolores) é ainda feita com base em morfologia do órgão de esporulação. Conseguir identificar bolores requer muita prática, experiência e conhecimento. Agora imaginem que eu encontro um fungo que não consigo identificar; basta que eu tire uma foto do microscópio dele e dê um “Google”! Voilá! O Google me dará a identificação (semelhante ao que está acontecendo com os diagnósticos médicos).
Isso é uma exemplo de inteligência artificial (IA) formidável, na minha opinião.
Pena que a IA esteja chegando tão lentamente, maquitolando, com falta de ar…
Fiz uma experiência com esse recurso do Google e me frustrei um pouco. Mandei uma foto minha e, para minha surpresa, ele devolveu umas cinquenta fotos de… mulheres! Nenhuma delas com barba… algumas até bem bonitas. Foi muito divertido, mas pouco útil. Repetindo a experiência com uma foto de fungo mesmo (Microsporum gypseum, dermatófito), voltaram 6 fotos de cogumelos – sem dúvida parentes, mas muito diversos. Compará-los ao M. gypseum equivale a colocar um lêmur e voltar a figura de um orangotango.
Mas ele achou o meu site que continha essa foto, e isso foi interessante.
Ou seja, o mecanismo precisa de aperfeiçoamentos, mas está a caminho. Em um certo sentido, isso soa assustador: alguém fotografa você na rua sem que vc saiba e, em segundos, obtém uma ficha completa de quem é você.
George Orwell e Aldous Huxley iam gostar (ou não) de acompanhar um avanço desses.
Este ano acontece o 26º Congresso Brasileiro de Microbiologia, maior evento brasileiro na área (um dos maiores do mundo, segundo algumas pessoas). Ele será em Foz do Iguaçu, de 02 a 06 de outubro. O envio de resumos se encerra neste mês, 30/06. O link para fazer inscrição ou consultar as atividades é:
http://www.sbmicrobiologia.org.br/26cbm/
Vou estar lá coordenando, com a profa. Marcela Pellegrini, a área de Ensino da Microbiologia.
No fim do ano passado o Estadão divulgou um site que se propõe a ser um grupo de estudos online para debater a aplicação de tecnologia digital à educação. O endereço é
http://www.educarnaculturadigital.org.br
Ele é mantido pelas fundações Santillana e Telefônica. Eu me inscrevi hoje. Não sei se será proveitoso, mas a proposta é interessante e a página inicial é bem construída, inclusive com um design bacana.
E, aproveitando a postagem, aqui vai um novo site de periódicos gratuitos que descobri:
http://pkp.sfu.ca/ojs-journals
O Public Knowledge Project é uma parceria entre a Faculdade de Educação da Universidade de British Columbia, a Simon Fraser University Library, a Faculdade de Educação da Universidade de Stanford e o Centro Canadense de Estudos da Simon Fraser University.
Andei olhando a lista de periódicos e ela é bem eclética: existem inúmeras revistas da área da saúde mas também sobre filosofia, história medieval, engenharia hidráulica e por aí vai. É uma listagem bem extensa. Não sei em que grau os periódicos nela coincidem com outros sites como o Directory of Open Access Journals. A conferir.
ESTA É UMA REPUBLICAÇÃO DE UMA POSTAGEM DO MEU BLOG ANTERIOR (blog.microbiologia.vet.br)
Sim, o assunto é bem exótico mas não é novo, porque já saíram trabalhos relacionando microrganismos e obesidade. Mas no final de abril saiu novo relato dessa relação inusitada, com pequenas diferenças de estudos anteriores:
http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/905599-estudos-relacionam-obesidade-a-flora-intestinal-ruim.shtml
Aparentemente, o TIPO de microbiota que “cultivamos” em nossso intestinos parece condicionar pequenas diferenças de metolismo e digestão que acabam por influenciar o ganho de peso. O assunto é interessantíssimo, mas ainda não tive chance ir atrás dos artigos originais. Detalhe impertinente: a palavra “flora” continua a ser usada em detrimento de “microbiota”.
Uma que esqueci de comentar mas é interessante por tratar de métodos de CONTROLE de microrganismos: “Luz intensa combate infecção hospitalar”
http://noticias.bol.uol.com.br/ciencia/2010/12/28/luz-intensa-combate-infeccao-hospitalar.jhtm
Fiquei curioso sobre o novo método, pois radiação UV não pode ser aplicada em locais com pessoas presentes, além de não ser penetrante, e radiação gama é impensável. Que tipo de radiação é essa que poderia ser penetrante e ao mesmo tempo não levar a efeitos colaterais na pele de seres humanos?
Por fim, uma justa promoção de uma amiga: a pesquisadora Márcia Aiko Shirakawa apareceu numa reportagem da FAPESP alertando sobre o problema do projeto da cidade de São Paulo que preconiza a pintura de todos os telhados de branco. As tintas empregadas seriam o paraíso dos fungos e nós teríamos a criação de uma megaproblema microbiológico na cidade inteira. O assunto é cientificamente interessante e afeta diretamente os moradores da capital paulista:
http://agencia.fapesp.br/13835