Entre o céu e o inferno

__________Mesmo professor, mesma metodologia, mesmo assunto… e duas aulas COMPLETAMENTE diferentes.

__________Uma, penosa, desgastante, sofrida; as pessoas são impassíveis, não perguntam, não reagem, não riem, não fazem colocação de espécie alguma. Vários ficam usando o celular de forma descarada, rindo alto e conversando, como se vc não estivesse ali; outros conversam elasmossaurocomo se estivessem no boteco da esquina. Ninguém tem dúvida nem certeza, exceto talvez de que não quisessem estar ali, a julgar pelos bocejos, pelas bufadas de saco cheio, pelas expressões de fastio. Poucos se destacam, e mesmo esses se contagiam com o clima de alheamento que parece ser o DNA desse grupo. Diante disso, reza-se pelo final da aula, que vem de forma antecipada, antes do horário, como se nosso inconsciente, desesperado para livrar-se de tamanha provação, abreviasse frases, acelerasse o ritmo da fala, ignorasse curiosidades, acréscimos, adendos, aplicações.

__________A outra, um espetáculo didático em que grande parte do tempo é a turma que dita o ritmo da aula, participando intensamente, interessada, curiosa, motivada, fazendo perguntas, contando animada sobre o que viu no jornal ou na imprensa acerca do assunto. Quando a gente vê, o horário já deu e ainda estamos falando – e parte da sala ainda fica ali, sem debandar com seu material. Tanto se falou, debateu e se trocou, num clima afetivo, cordial e criativo, que uma aluna, ao se despedir quando todos já haviam saído, faz uma síntese: “Que aula deliciosa! Uma das melhores do semestre!”

__________A diferença entre esses dois extremos absurdamente díspares não foi o professor, a vista da janela, a consistência do giz ou a quadratura da lousa. Foi a TURMA. Essa confrontação ajuda a dissolver o pedagogês demagógico de “centrar” a aula aqui ou acolá. Sem professor não há aula; sem turma não há aula. Simples assim. O processo de aprendizado envolve AMBAS as partes e ambas são responsáveis pelo resultado final. É dessa interação que nasce o inferno ou o céu. Eu vivi isso esta semana de forma tão extrema que parece coisa sobrenatural, como que para mostrar para um incrédulo como eu a força que o mágico contraste tem na existência.

__________Turmas são como safras, já disse um professor em um artigo da Folha de São Paulo. Há as boas, as médias e as ruins. O que explica essas diferenças? Talvez misteriosas conjunções astrológicas. Talvez a microbiota do solo. Talvez a radiação dos quasares. Nunca ninguém chegou perto de decifrar esse enigma. Mas ele está aí.

Complexo Maior de Histocompatibilidade (MHC): mostrando a aplicação das ciências básicas

__________Quando se ministram disciplinas básicas (microbiologia, imunologia, parasitologia, bioquímica, farmacologia, etc.), um dos grandes desafios do professor é mostrar a aplicação de tudo isso. É um ponto fundamental para manter a motivação dos alunos e monstrengofazer uma integração entre a parte básica e a aplicada. Se isso não acontece, já reparei que os alunos se desestimulam e passam a enxergar a matéria como um fardo a ser carregado ou um “pedágio” necessário para se chegar ao final do curso.

__________Ao mesmo tempo, vários alunos que parecem ter “inapetência intelectual” desprezam as disciplinas básicas independente de sua importância ou da forma como são ministradas, achando que já nasceram profissionais formados que sabem exatamente o que precisam dominar de conhecimento. Para esse pessoal, fica a dica: os maiores e mais interessantes avanços na área médica e veterinária tem ocorrido justamente em pesquisa básica. As técnicas moleculares que permitem achar criminosos na medicina forense ou fazer diagnósticos rápidos e certeiros de viroses como o ebola nasceram de pesquisa básica.

__________Entender essas ciências está sendo, mais do que nunca, o diferencial entre um profissional medíocre e raso e um profissional atualizado e competente, capaz de resolver problemas importantes. Façam suas escolhas…

__________Nesse contexto, a IMUNOLOGIA é um campo interessantíssimo. Tomo como exemplo para esta postagem minha aula de MHC (Complexo Maior de Histocompatibilidade). É uma das aulas que mais gosto na Imuno, e sempre tento fazer pontes entre ela e aplicações relevantes, como transplantes e compatibilidade tecidual, resistência às doenças, extinção de espécies. Mas como ando sentindo falta de reforçar essa ligação, tive a ideia de trazer exemplos palpáveis de aplicação. Fui em busca desses exemplos e consegui alguns que aliam modernidade e didatismo. Antes, um alerta: todos os textos que vou mostrar aqui são facilmente acessíveis através do PubMed (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed), mas estão em INGLÊS. Muita gente entra num estado de chororô convulsivo quando vê um texto em inglês, gemendo e reclamando copiosamente. Se metade dessa energia usada para se vitimizar fosse direcionada para aprender o idioma em questão, não haveria mais problema para esse indivíduo e o aprendizado dele daria um fabuloso salto qualitativo. Nem preciso dizer que o domínio elementar da língua inglesa é o passaporte para ser um profissional atualizado, valorizado pelo mercado e integrado à comunidade científica e profissional. Mas vamos ao assunto…

__________Um primeiro exemplo de aplicação vem de uma doença importante tanto na veterinária quanto na medicina humana, a TUBERCULOSE:

MHC 6

__________Esse trecho do artigo trata de uma das coisas mais importantes relacionadas ao MHC, que é a sua propriedade de condicionar a resistência às doenças infecciosas. Reparem que há populações particularmente vulneráveis à tuberculose (como alguns índios amazônicos) e essa vulnerabilidade é explicada pelos alelos de MHC portados por essas populações; coisa semelhante parece acontecer na lepra. Acho providencial este exemplo, porque ele ajuda a elucidar aqueles fenômenos de populações resistentes, que normalmente os alunos associam com a presença de memória imunológica, quando na verdade são o resultado de um processo demorado de seleção de alelos do MHC.


__________Outro exemplo bacana é este em relação às malassézias (Malassezia furfur em humanos e M. pachydermatis em animais):

MHC 3

__________Na tabela ao lado são listados os fatores que condicionam/predispõem à infecção por esse agente em neonatos (clique na imagem ao lado para ampliar a tabela). Entre eles, a BAIXA EXPRESSÃO DE ALELOS HLA-DR. Neste ponto, aproveito para relembrar os genes do MHC: HLA-A, HLA-B, HLA-C, HLA-DP, HLA-DQ, HLA-DR – não trato aqui das variantes cadeia alfa e beta.


__________Neste artigo aqui temos uma variação do tema: indivíduos portadores do alelo HLA-B27 são mais suscetíveis a uma forma MHC 4
grave de infecção por Yersinia enterocolitica que envolve uma artrite não supurativa. Ótimo momento para lembrar a incrível quantidade de alelos do MHC, sua característica mais peculiar:
MHC 8










__________Já este artigo trata de uma doença muito importante, a febre tifóide por Salmonella typhi, e MHC 5
correlaciona um padrão de alelos com a suscetibilidade a essa doença ou a resistência a ela. Imagino que para muitos essa profusão de siglas deve ser assustadora – e é. Mas nada que um pouco de disciplina e esforço não consigam transformar em algo familiar. Eu disse um pouco?…





__________Outra correlação muito interessante é entre a dengue hemorrágica (DHF) e padrões de alelos. Muito curioso MHC 7observar que no Haiti, apesar das precárias condições sanitárias e pobreza geral, além de uma hiperendemia de dengue, não há relatos de dengue hemorrágica! Tudo graças ao padrão de alelos de MHC que prevalece nesse país.









FECHAMENTO: Talvez muitos estejam tendo dificuldade de ver a aplicação do tema, mas creio que está claro que, se no futuro tivermos a) uma prova rápida, precisa e barata para sequenciar os genes do MHC para cada indivíduo (humano ou animal) e b) um conjunto de dados confiável que faça correlações precisas entre determinado alelo ou conjunto de alelos e determinadas doenças, passaremos a ter uma abordagem inédita das doenças infecciosas, com a individualização de tratamentos e medidas preventivas, além de certamente facilitarmos uma série de diagnósticos. Hoje lidamos com o paciente de forma PADRONIZADA, porque é impossível saber exatamente suas características individuais de reação imunológica, flutuação hormonal, fisiologia peculiar, farmacocinética e outras tantas. No futuro, creio que olharemos para trás e vamos ficar espantados com a precariedade de se lidar assim com as doenças. Vai nos parecer coisa “pré-histórica”. E esse futuro está bem próximo. Por isso, gostaria muito que os meus alunos compreendessem em profundidade esta aula e todas as implicações dela para a prática clínica.

Artigo de hoje da Suzana Herculano-Houzel

__________Hoje saiu um artigo curto mas muito claro da Suzana Herculano-Houzel na Folha sobre o papel da tecnologia no
cobra
ensino. Adoro adotar tecnologia nas minhas aulas, mas compartilho inteiramente da opinião dela quanto a ilusão de que isso seja a grande diferença para o aprendizado:

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/suzanaherculanohouzel/2014/09/1509380-tecnologia-e-boas-aulas.shtml

GESTÃO DE APRENDIZADO – 1

__________Aqui vai uma postagem sobre um assunto recorrente tanto na veterinária como na medicina: FALTA DE TEMPO PARA ESTUDAR. Na veterinária, isso se aplica especialmente ao pessoal que trabalha e estuda; na medicina, para todos os alunos, porque o curso é integral e toma o dia inteiro. Em relação a isso, eu tenho uma boa e uma má notícia…

CUICA

__________Melhor começar pela má notícia: não existe atalho mágico para você aprender e ser aprovado sem dedicar tempo para o estudo. Ninguém vai conseguir ser um veterinário ou um médico competente sem sacrifício. Não é simplesmente estando presente nas aulas que se vai conseguir aprender tudo o que tem que ser aprendido. É preciso estudar, e MUITO. A boa notícia é que, a despeito das dificuldades em relação ao escasso tempo para estudar, existem algumas estratégias que podem otimizar o estudo. Não sou nenhum especialista nessa área (meu negócio são os fungos…), mas a persistência desse problema com meus alunos está me forçando a buscar soluções que os auxiliem. E esta postagem pretende ser a primeira de muitas.

__________Pretendo ficar longe da enrolação da linguagem pedagógica tradicional que muitas vezes ‘fala muito e não diz nada’. Não faltam por aí longos textos recheados de adjetivação, rococó retórico e promessas etéreas (1), parecidas com as promessas da candidata a presidente cuja proposta concreta de governo é fazer uma presidência “sonhática”. Esse tipo de coisa pode ser boa para iludir o espírito e criar falsa esperança, mas são inúteis, porque não tem conteúdo algum, só pura auto-ajuda barata. Minha idéia aqui é tentar, na medida do possível, trazer algum elemento realmente concreto, aplicável e mensurável, com fundamentação científica.

__________E a primeira coisa que quero tratar acerca de aprendizado é uma questão pra lá de mundana: o sono. Jovens são conhecidos por dormirem pouco, em decorrência de baladas e outros eventos sociais que tanto caracterizam essa idade. Também há o clássico “passar a noite em claro” para estudar para uma prova particularmente difícil. Pois saibam que privação de sono é uma das primeiras besteiras que se podem fazer para prejudicar o aprendizado. Não vou discorrer sobre o papel fisiológico do sono, mas há muitos estudos científicos associando sono e aprendizado, especialmente com a consolidação da memória. Um interessante que saiu recentemente é este (2):

GESTAO_DE_APRENDIZADO_1
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__________Embora não seja específico para conteúdo de graduação e sim para aprendizado motor, as conclusões dele são extrapoláveis (e há outros artigos que seguem nessa linha):

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__________Não é o melhor, não é o único e tampouco é um estudo sem contestações – há pesquisadores que não confirmaram algumas conclusões dessa linha de pesquisa, é bom que se saiba. Mas a maioria dos estudos parece confirmar essa posição: dormir consolida a memória (especialmente aquela derivada de aprendizado consciente). Um trecho do artigo em questão que destaca esse aspecto segue abaixo:

gestao_de_aprendizado_3
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__________Portanto, dormir bem e durante tempo adequado é uma correção que muitos alunos que negligenciam este aspecto podem fazer para tentar melhorar seu desempenho. O que é adequado em termos de horas de sono é algo meio individual, mas não se escapa muito de umas 7 horas de sono.

__________Eu gostaria muito de poder ver a participação dos meus alunos nos comentários, inclusive sugerindo fontes de leitura complementares. Isso iria enriquecer muito esta postagem e este debate, que é tão útil a tanta gente.

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(1): Aqui vai uma referência aos interessados nessa história de manipulação via linguagem esvaziada de sentido: leiam o livro IMPOSTURAS INTELECTUAIS, do Alan Sokal. Virou um clássico depois que o Sokal criou propositadamente um texto cheio de expressões pedantes e afetadas, num malabarismo retórico oco e sem gestao_de_aprendizadosentido, e conseguiu publicá-lo na mais prestigiosa revista de ciências humanas do mundo (o que mostra que a imbecilidade permeia todos os níveis da sociedade humana, inclusive a nata do círculo científico).

(2): Artigo de acesso gratuito: http://ptjournal.apta.org/content/89/4/370.full.pdf+html

Testes ou dissertativas?

Republicando uma postagem de 2011: “Hoje saiu no Estado de São Paulo uma entrevista com BARRY McGAW, um dos criadores do famoso PISA (é um programa internacional de avaliação de estudantes). Daspinto_gordo várias ideias interessantes discutidas, uma me chamou a atenção. O que é melhor para avaliar? Questões testes ou dissertativas? Para ele, são as dissertativas as que medem de maneira mais apropriada o aprendizado – nas suas palavras, não medem apenas o que foi aprendido, mas a capacidade de se usar o que foi aprendido. Concordo com ele. O problema é o custo, já que o PISA é aplicado a milhares de alunos no mundo inteiro. Veja o trecho em que ele comenta isso:”

testes_dissertativas

Inspirações

__________ Um livro pode mudar a sua vida?

__________ Sim, pode, porque ele pode transformar a forma como você vê e compreende o mundo. Às vezes de forma profunda. Carrego alguns testemunhos pessoais aqui comigo, e torço para que eles sirvam de inspiração aos meus alunos – assim como muitos alunos nos inspiram (esta postagem nasceu de uma mensagem da Sandra Rosado e da paixão por livros da Helena di Creddo).
morcego
__________ Sem rodeios, meu maior “testemunho”: O ANIMAL MORAL, de Robert Wright, lido em 1996. É bom que se diga que nem de longe ele é o grande livro da psicologia evolucionista, mas foi o primeiro, e significou um ponto de inflexão para a minha vida. Gostoso de ler, trata do funcionamento da mente humana e da origem da engenharia biológica que a produziu. Dá pra ver a vida do mesmo jeito depois dele? Impossível. A existência ficou mais alegre e feliz?

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__________ Não. Descobrir a verdade não implica em descobrir a felicidade (frequentemente significa o inverso). Mas para os que têm essa ânsia de saber de forma atávica e involuntária, não há botão liga/desliga; o jeito é compreender a marcha e seguir em frente. No entanto, há quem não goste desse percurso. Uma vez uma aluna empolgada seguiu minha dica de leitura e começou a ler O MUNDO ASSOMBRADO PELOS DEMÔNIOS, do Carl Sagan (meu grande livro de cabeceira, outra leitura transformadora).

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__________ A menina acabou confessando que estava deprimida por causa do livro. Não faço ideia se ela o terminou ou se deu cabo dele num triturador de papel (uma morte infame, sem dúvida), mas o fato é que existem livros que não são para frouxos (parafraseando Harrison Ford).

__________ Desde a época do ANIMAL MORAL li pencas de livros da mesma temática, alguns geniais, mas aí era reforço, reforma, acréscimo. Nenhum arrebentou a porteira como o livro do Wright (que hoje nem considero o melhor). Passei anos sem ter a mesma sensação de descoberta revolucionária. Até que… veio o ano de 2013 (sim, “apenas” 17 anos se passaram para encontrar outro livro candidato a ponto de inflexão). E começou de forma banal. Achei o livro apenas interessante quando o vi nas prateleiras da Martins Fontes: RÁPIDO E DEVAGAR: DUAS FORMAS DE PENSAR, do Daniel Kahneman. Muita coisa dele nem é propriamente novidade, pois já havia aparecido em outros livros. A diferença é a teorização de inconsciente e a profundidade com que Kahneman aborda o funcionamento da mente humana. Um sujeito que ganha o Nobel de economia sem ser economista tem, de fato, alguma coisa interessante para falar. Eis um “aperitivo” sobre o livro: nosso cérebro tem um fenômeno chamado de priming, onde um estímulo, de forma associativa, evoca especificamente certas ideias inconscientes. Parece bobo? Pois o priming não se restringe a conceitos e palavras. rapido_devagarVeja esse perturbador experimento: grupos de estudantes tiveram que montar frases com uma pequena lista de palavras desconexas. O grupo controle recebeu uma lista com palavras escolhidas aleatoriamente; outro grupo recebeu uma listagem que, de maneira propositada, tinha palavras associadas à velhice, embora de forma indireta (grisalho, esquecido, careca, ruga, etc.). Depois de cada grupo montar as frases, eles foram encaminhados a outro laboratório, em outro prédio. O grupo que trabalhou com palavras relacionadas à velhice demorou mais tempo para chegar ao segundo laboratório (tudo fundamentado estatisticamente). Segundo os pesquisadores, as palavras relacionadas à velhice evocaram de forma inconsciente um traço do comportamento de idosos, o caminhar lento. Isso sem os estudantes se darem conta! Esse fenômeno de uma ideia influenciando uma ação inconsciente é conhecido como efeito ideomotor. Da mesma forma, alunos que viam cartuns enquanto tinham que segurar um lápis entre os dentes (forçando o sorriso de forma apenas motora) achavam os cartuns mais engraçados do que aqueles que eram orientados a franzir o rosto (atitude de concentração e seriedade). Uma coisa aparentemente desconexa influenciando de forma profunda nossas emoções e pensamentos. Novidade? Não totalmente, mas não lembro de uma descrição tão apurada e com a fundamentação científica que encontrei no livro do Kahneman.

__________ Talvez valha a pena fazer uma careta de profunda reflexão durante a sua próxima prova de imunologia.

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Sobre o livro “DICAS DE ENSINO”

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____________Finalmente terminei o livro sobre Ensino/Aprendizagem que considero o MELHOR que já li até hoje: DICAS DE ENSINO, de MARILIA SVINICKI & WILBERT J. MCKEACHIE. A maneira como ele veio parar nas minhas mãos ilustra bem um aspecto que permeia nossas vidas: o acaso. Ninguém me indicou ou vi resenha sobre ele em sites da Internet. Eu estava na Martins Fontes fazendo uma das coisas que amo fazer: passear por livrarias a esmo, olhando de tudo um pouco, como se estivesse num delicioso labirinto de ideias. Sempre costumo olhar as estantes de livros dedicados a ensino. Das centenas que havia lá, após uns 30 minutos olhando, peguei esse sem botar muita fé – afinal o título dele não é muito chamativo; parece muito vago, quase superficial. Para minha sorte, ele se mostrou a mais completa abordagem de estudo da prática docente universitária que já vi. E amparado por extensa bibliografia. É uma benção quando se encontra um livro assim, porque aqui no Brasil, grande parte dos livros relacionados ao tema são um blábláblá de pedagogês que só serve para mostrar as habilidades do autor em falar muito e não dizer nada, misturando acrobacia verbal e ideologia esquerdopata do pior nível.
____________Aprendi muito com esse livro e tenho uma lista de ideias interessantes a aplicar em aula e também muita sugestão de trabalhos científicos que podem ser realizados nessa área. Um livro que aconselho fortemente para quem gosta da arte de ser professor.

Morangos, zigomicetos & sistema imunológico

__________ Uma das mais abrangentes características dos fungos na área médica e veterinária é o seu OPORTUNISMO. Frequentemente infecções fúngicas importantes só ocorrem quando a imunidade do hospedeiro está de alguma forma muito comprometida (neste caso ficam de fora as micoses benignas de pele, muito comuns). Um exemplo muito emblemático são as ZIGOMICOSES, micoses causadas por fungos pertencentes à subdivisão Zigomycotina. São fungos de hifas enormes, não septadas e de crescimento ultra-rápido. Convivemos intensamente com eles no nosso dia a dia, pois eles são importantes deteriorantes de alimentos. Um exemplo? Fotografei uma caixa de morangos que embolorou na geladeira:


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__________Pegando um “close” do morango atacado, é interessante reparar nas “cabeças” pretas que emergem de uma trama de algodão fino e branco:


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__________Fazendo uso de uma técnica clássica e muito simples (durex), coletei uma amostra e fotodocumentei as imagens em um microscópio acoplado a uma máquina. Apesar de perder alguns morangos, fiquei muito empolgado! Obtive imagens lindas e tão completas que servem até para aula. Provavelmente trata-se de um membro do gênero Mucor. Esta imagem mostra um esporângio (órgão de esporulação, que a olho nu são as “cabeças pretas”), cheio de esporos:

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__________Aqui um esporângio arrebentado liberando seus esporos:

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__________E aqui a vesícula que restou depois que um esporângio arrebentou e liberou por completo seus esporos:


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__________Esse fungo (ou outros relacionados da mesma subdivisão) entra em contato conosco o tempo inteiro. Ao pegar um morango embolorado e jogá-lo fora, estamos manipulando seus esporos, que aliás são também inalados e ingeridos (quem garante que outro morango não esteja com esporos na sua superfície?). No entanto, não adoecemos. Apenas em circunstâncias excepcionais (severo comprometimento imunológico, como leucemias, AIDS, diabetes avançado) ele pode causar problemas. Como ilustração, aqui vão alguns links com artigos científicos que relatam casos clínicos envolvendo membros desse grupo:

1. Rhino-cerebral zygomycosis after allogeneic transplant: case report and literature review
http://www.rjme.ro/RJME/resources/files/520211715718.pdf
Uma zigomicose rino-cerebral em um paciente com leucemia.Há imagens de tomografia do crânio do paciente e também fotos do exuberante crescimento desses fungos.

2. Ileocolonic mucormycosis in adult immunocompromised patients: A surgeon’s perspective
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2835798/pdf/WJG-16-1165.pdf
Relato de 3 casos de mucormicose em parede intestinal. Há fotos nítidas das lesões produzidas. Todos os três tinham linfomas.

3. A rare presentation of zygomycosis (mucormycosis) and review of the literature
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1770885/pdf/jcp05800879.pdf
Relato de caso de uma mulher com linfoma que desenvolveu também quadro de zigomicose no intestino. Há um relato interessante do histopatológico, inclusive com uma foto mostrando as hifas grosseiras não septadas na biópsia feita no íleo.