Fórum de Microbiologia e Imunologia

__________ Uma das mais abrangentes características dos fungos na área médica e veterinária é o seu OPORTUNISMO. Frequentemente infecções fúngicas importantes só ocorrem quando a imunidade do hospedeiro está de alguma forma muito comprometida (neste caso ficam de fora as micoses benignas de pele, muito comuns). Um exemplo muito emblemático são as ZIGOMICOSES, micoses causadas por fungos pertencentes à subdivisão Zigomycotina. São fungos de hifas enormes, não septadas e de crescimento ultra-rápido. Convivemos intensamente com eles no nosso dia a dia, pois eles são importantes deteriorantes de alimentos. Um exemplo? Fotografei uma caixa de morangos que embolorou na geladeira:


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__________Pegando um “close” do morango atacado, é interessante reparar nas “cabeças” pretas que emergem de uma trama de algodão fino e branco:


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__________Fazendo uso de uma técnica clássica e muito simples (durex), coletei uma amostra e fotodocumentei as imagens em um microscópio acoplado a uma máquina. Apesar de perder alguns morangos, fiquei muito empolgado! Obtive imagens lindas e tão completas que servem até para aula. Provavelmente trata-se de um membro do gênero Mucor. Esta imagem mostra um esporângio (órgão de esporulação, que a olho nu são as “cabeças pretas”), cheio de esporos:

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__________Aqui um esporângio arrebentado liberando seus esporos:

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__________E aqui a vesícula que restou depois que um esporângio arrebentou e liberou por completo seus esporos:


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__________Esse fungo (ou outros relacionados da mesma subdivisão) entra em contato conosco o tempo inteiro. Ao pegar um morango embolorado e jogá-lo fora, estamos manipulando seus esporos, que aliás são também inalados e ingeridos (quem garante que outro morango não esteja com esporos na sua superfície?). No entanto, não adoecemos. Apenas em circunstâncias excepcionais (severo comprometimento imunológico, como leucemias, AIDS, diabetes avançado) ele pode causar problemas. Como ilustração, aqui vão alguns links com artigos científicos que relatam casos clínicos envolvendo membros desse grupo:

1. Rhino-cerebral zygomycosis after allogeneic transplant: case report and literature review
http://www.rjme.ro/RJME/resources/files/520211715718.pdf
Uma zigomicose rino-cerebral em um paciente com leucemia.Há imagens de tomografia do crânio do paciente e também fotos do exuberante crescimento desses fungos.

2. Ileocolonic mucormycosis in adult immunocompromised patients: A surgeon’s perspective
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2835798/pdf/WJG-16-1165.pdf
Relato de 3 casos de mucormicose em parede intestinal. Há fotos nítidas das lesões produzidas. Todos os três tinham linfomas.

3. A rare presentation of zygomycosis (mucormycosis) and review of the literature
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1770885/pdf/jcp05800879.pdf
Relato de caso de uma mulher com linfoma que desenvolveu também quadro de zigomicose no intestino. Há um relato interessante do histopatológico, inclusive com uma foto mostrando as hifas grosseiras não septadas na biópsia feita no íleo.


Há uns dias atrás tropecei com uma notícia do UOL sobre o doutor Bactéria. Segunda a notícia (um vídeo), a sola de sapatos estaria mais limpa do que os nossos celulares. O vídeo pode ser conferido no link http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/ultnot/multi/2011/09/13/04020E1A3668D8812326.jhtm). Digo tropecei porque ela me chamou muito a atenção e provocou o meu espanto. Esse dado que ele obteve contradiz dados informais de muitos anos e até conceitos bem consolidados da microbiologia. Uma das maiores fontes de microrganismos que temos é o solo. Solas de sapatos estão em contato contante e sistemático com ele. É natural que a carga microbiana delas seja elevadíssima. E é exatamente isso que constatamos quando se coleta material desse local. Vários alunos meus ficam chocados ao verificar tanto crescimento microbiano que, às vezes, leva as placas a serem lacradas, pois a exuberância dos microrganismos corre o risco de “transbordar”. Já os celulares, que também foram motivos de coleta muitas vezes, apresentam sempre uma carga microbiana muito inferior, mas perfeitamente coerente com o uso normal. Encontrar um celular com carga microbiana MAIOR do que a sola de um sapato é, NO MÍNIMO, estranho*. Na minha vida de microbiologista, com quase 20 anos de observação, nunca vi dado semelhante – embora os celulares tenham entrado em uso mais intensivo nos últimos 10 anos. Fiquei com a impressão que o Doutor Bactéria – que tem méritos por ter colocado a MICROBIOLOGIA na pauta da ciência popular – quis criar um “Factóide microbiológico”. Factóide é um termo empregado na política quando determinados políticos pegam algum fato inexpressivo ou comum e conseguem manipulá-lo de forma a torná-lo um furo de reportagem – apenas aparente, diga-se de passagem.

Ao comentar isso com meus alunos, ouvi uma observação bem humorada e criativa que poderia explicar esse dado incongruente: talvez a comparação tenha sido feita entre um celular com um aplicativo do tipo Au-au Phone, que transforma seu celular num cão de estimação. Sim, você baixa um aplicativo que faz seu celular latir; aí, amarra uma coleira nele e o leva para passear. Nesse caso, sim, um celular poderia ter uma carga microbiana maior que uma sola de sapato!

Confesso que essa era uma hipótese que eu não havia considerado.
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* Ainda que isso fosse verdade (como “verdade”, penso num dado consistente que se repete em várias medições para ter alguma relevância), ele se esqueceu de que uma avaliação microbiológica deve sempre levar em consideração o aspecto QUANTITATIVO (o que foi avaliado) MAS TAMBÉM QUALITATIVO – que tipo de microrganismos foram encontrados. Encontrar esporos de Clostridium botulinum (agente do botulismo) no jardim de casa é normal, mas não em uma lata de patê da geladeira.

Sim, essa é a ideia de HARALD ZUR HAUSEN, infectologista alemão, famoso por ter contribuído para a ligação entre o HPV (paipilomavírus humano) e o câncer de colo de útero (cervical) nos anos 80.

Segundo ele, o cozimento da carne não seria suficiente para inativar certos tipos de poliomavírus (um vírus “primo” do HPV e que pertence à mesma família, Papovaviridae). Isso parece fazer algum sentido, pois os papovavírus não são envelopados e, por isso, são resistentes no meio ambiente. A famosa carne crua ou mal passada sustentaria essa parte da hipótese do infectologista alemão.

Para ele, cânceres de pulmão, mama e intestino pdoeriam estar relacionados com esses vírus.

Isso pode soar estranho, a princípio, mas segundo ele, há uma forte correlação entre consumo de carne bovina e predisposição a câncer de intestino, por exemplo. E aparentemente isso não estaria relacionado a componentes da carne bovina, que também são encontrados em outras carnes, como suína, caprina e ou de frango, que também são submetidas ao cozimento ou fritura.

Talvez ele esteja certo. Há 30 anos não se imaginava que úlceras e câncer de estômago poderiam ter causa infecciosa, e hoje isso não só é consenso como o agente relacionado com esses quadros (Helicobacter pylori) parece explicar a maioria deles.

Infelizmente a reportagem da Folha é de acesso restrito (Caderno SAÚDE de 28 de junho de 2011). Mas sugiro a vocês que busquem pelo nome desse médico alemão para achar artigos relacionados. Uma busca no PUBMED também pode ser interessante.

Há semanas que não param de sair notícias sobre o surto de infecção por Escherichia coli entero-hemorrágica na Europa. Mais de 40 mortes e centenas de infectados, muitos com sequelas permanentes. Esse surto está maior do que o da Escócia, que aconteceu alguns anos atrás e matou por volta de 25 pessoas. Como o surto continua e toda semana aparecem notícias novas, é interessante acompanhá-lo por sites como o da Organização Mundial da Saúde (http://www.euro.who.int/en/what-we-do/health-topics/emergencies/international-health-regulations/ehec-outbreak-in-Germany) e do CDC (http://www.cdc.gov/ecoli/2011/ecoliO104/).

Para quem quiser saber um pouco sobre o surto da Escócia, que ocorreu nos anos 90, basta acessar o site da FAO: http://www.fao.org/docrep/MEETING/004/X6925E.HTM

E hoje saiu uma suspeita de que a cidade de Campinas pode ter os primeiros casos dessa linhagem de bactéria por aqui:
http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,campinas-registra-duas-suspeitas-de-contaminacao-pela-bacteria-ecoli,736617,0.htm

Três notícias interessantes e bem diversas.

Fungos usados para combater parasitas em animais:
http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/922274-tecnica-de-esterco-com-fungos-combate-parasitas-em-animais.shtml

Formol consolida sua fama de cancerígeno:
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110613/not_imp731604,0.php

Vetores virais para tratamento de câncer:
http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/932718-vacina-viral-ataca-tumores-de-prostata-mostra-pesquisa.shtml

Sim, eu já havia sentido o gosto da inteligência artificial com o mecanismo de busca do Google por voz e um aplicativo do IPhone que busca músicas na rede a partir de pequenos trechos. Mas senti de novo hoje. E tenho a impressão que será cada vez mais recorrente.

Agora o Google lançou um mecanismo de busca por imagens (na tela do Google imagens, há um ícone de máquina fotográfica à direita da barra de busca; clique ali para experimentar). Ao invés de você digitar uma palavra, você manda a sua imagem para o Google e ele te lista as imagens da rede mais “parecidas”. Achei o recurso incrível, inclusive pela sua aplicação em diagnóstico. Para vocês entenderem melhor: identificação de fungos filamentosos (bolores) é ainda feita com base em morfologia do órgão de esporulação. Conseguir identificar bolores requer muita prática, experiência e conhecimento. Agora imaginem que eu encontro um fungo que não consigo identificar; basta que eu tire uma foto do microscópio dele e dê um “Google”! Voilá! O Google me dará a identificação (semelhante ao que está acontecendo com os diagnósticos médicos).

Isso é uma exemplo de inteligência artificial (IA) formidável, na minha opinião.

Pena que a IA esteja chegando tão lentamente, maquitolando, com falta de ar…

Fiz uma experiência com esse recurso do Google e me frustrei um pouco. Mandei uma foto minha e, para minha surpresa, ele devolveu umas cinquenta fotos de… mulheres! Nenhuma delas com barba… algumas até bem bonitas. Foi muito divertido, mas pouco útil. Repetindo a experiência com uma foto de fungo mesmo (Microsporum gypseum, dermatófito), voltaram 6 fotos de cogumelos – sem dúvida parentes, mas muito diversos. Compará-los ao M. gypseum equivale a colocar um lêmur e voltar a figura de um orangotango.

Mas ele achou o meu site que continha essa foto, e isso foi interessante.

Ou seja, o mecanismo precisa de aperfeiçoamentos, mas está a caminho. Em um certo sentido, isso soa assustador: alguém fotografa você na rua sem que vc saiba e, em segundos, obtém uma ficha completa de quem é você.

George Orwell e Aldous Huxley iam gostar (ou não) de acompanhar um avanço desses.

Este ano acontece o 26º Congresso Brasileiro de Microbiologia, maior evento brasileiro na área (um dos maiores do mundo, segundo algumas pessoas). Ele será em Foz do Iguaçu, de 02 a 06 de outubro. O envio de resumos se encerra neste mês, 30/06. O link para fazer inscrição ou consultar as atividades é:

http://www.sbmicrobiologia.org.br/26cbm/

Vou estar lá coordenando, com a profa. Marcela Pellegrini, a área de Ensino da Microbiologia.

Sim, o assunto é bem exótico mas não é novo, porque já saíram trabalhos relacionando microrganismos e obesidade. Mas no final de abril saiu novo relato dessa relação inusitada, com pequenas diferenças de estudos anteriores:
http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/905599-estudos-relacionam-obesidade-a-flora-intestinal-ruim.shtml

Aparentemente, o TIPO de microbiota que “cultivamos” em nossso intestinos parece condicionar pequenas diferenças de metolismo e digestão que acabam por influenciar o ganho de peso. O assunto é interessantíssimo, mas ainda não tive chance ir atrás dos artigos originais. Detalhe impertinente: a palavra “flora” continua a ser usada em detrimento de “microbiota”.

Uma que esqueci de comentar mas é interessante por tratar de métodos de CONTROLE de microrganismos: “Luz intensa combate infecção hospitalar”
http://noticias.bol.uol.com.br/ciencia/2010/12/28/luz-intensa-combate-infeccao-hospitalar.jhtm

Fiquei curioso sobre o novo método, pois radiação UV não pode ser aplicada em locais com pessoas presentes, além de não ser penetrante, e radiação gama é impensável. Que tipo de radiação é essa que poderia ser penetrante e ao mesmo tempo não levar a efeitos colaterais na pele de seres humanos?

Por fim, uma justa promoção de uma amiga: a pesquisadora Márcia Aiko Shirakawa apareceu numa reportagem da FAPESP alertando sobre o problema do projeto da cidade de São Paulo que preconiza a pintura de todos os telhados de branco. As tintas empregadas seriam o paraíso dos fungos e nós teríamos a criação de uma megaproblema microbiológico na cidade inteira. O assunto é cientificamente interessante e afeta diretamente os moradores da capital paulista:
http://agencia.fapesp.br/13835

Esta semana recebi do professor Adalberto da SBM o ofício circular da ANVISA sobre o levantamento de laboratórios capacitados a identificar vírus e bactérias em águas de portos e de lastro de navios e embarcações marítimas. Lembro que há 25 anos atrás esse problema das águas de lastro de navios globalizarem doenças e colocarem em risco a biodiversidade já aparecia na imprensa. É incrível que tenhamos esperado um quarto de século para o poder público acordar para o problema. O site do governo com a divulgação está em
http://www.brasil.gov.br/noticias/arquivos/2011/03/23/anvisa-faz-levantamento-de-laboratorios-nacionais-capazes-de-analisar-qualidade-da-agua-em-portos

Detalhe: uma vez mais, os fungos ficaram de fora. Tudo bem. Já estou acostumado…

Há alguns artigos gratuitos sobre o tema.

Este descreve modelos matemáticos relacionados ao risco de disseminação. Só para os mais corajosos:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1691629/pdf/15156914.pdf

Este é mais interessante, pois une a área de controle microbiológico com o tema, propondo peróxido de hidrogênio como desinfetante para a água das embarcações:
http://www.biolbull.org/cgi/reprint/201/2/297

E este é sobre disseminação do cólera via água de lastro:
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC201689/pdf/aem00024-0401.pdf

Dia 7 de abril o UOL noticiou mais um surto de bactéria multirresistente, desta vez em Alagoas:

http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/ultimas-noticias/estado/2011/04/07/superbacteria-ja-matou-oito-em-hospital-de-alagoas.jhtm

O Acinetobacter baumannii é um cocobastonete Gram negativo, habitante da microbiota e que emergiu como oportunista recentemente. Suporta a dessecação, e cepas multiresistentes têm emergido em ambientes hospitalares, provavelmente devido à pressão seletiva do uso de drogas nesses locais.

Dois artigos gratuitos de revisão tratam dessa bactéria – e são bem atuais:

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2956563/pdf/sur.2009.022.pdf

http://www.jidc.org/index.php/journal/article/view/19759502/134

A posição taxonômica dessa bactéria pode ser consultada no Manual Bergey que o Google disponibilizou neste endereço:

http://books.google.com/books?id=jtMLzaa5ONcC&pg=PA73&lpg=PA73&dq=bergey’s+manual+acinetobacter&source=bl&ots=Ho5U98dRmk&sig=3sKKwyPKGzXZzKyHX44chTVVxvg&hl=en&ei=Ju2gTeOqKquC0QGmwvyVBQ&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=1&ved=0CBQQ6AEwAA#v=onepage&q=bergey’s%20manual%20acinetobacter&f=false

Fiquei meio surpreso de um livro de mais de 400 reais estar sendo disponibilizado pelo Google – ainda que seja a edição mais antiga.