Fórum de Microbiologia e Imunologia

__________ Um livro pode mudar a sua vida?

__________ Sim, pode, porque ele pode transformar a forma como você vê e compreende o mundo. Às vezes de forma profunda. Carrego alguns testemunhos pessoais aqui comigo, e torço para que eles sirvam de inspiração aos meus alunos – assim como muitos alunos nos inspiram (esta postagem nasceu de uma mensagem da Sandra Rosado e da paixão por livros da Helena di Creddo).
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__________ Sem rodeios, meu maior “testemunho”: O ANIMAL MORAL, de Robert Wright, lido em 1996. É bom que se diga que nem de longe ele é o grande livro da psicologia evolucionista, mas foi o primeiro, e significou um ponto de inflexão para a minha vida. Gostoso de ler, trata do funcionamento da mente humana e da origem da engenharia biológica que a produziu. Dá pra ver a vida do mesmo jeito depois dele? Impossível. A existência ficou mais alegre e feliz?

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__________ Não. Descobrir a verdade não implica em descobrir a felicidade (frequentemente significa o inverso). Mas para os que têm essa ânsia de saber de forma atávica e involuntária, não há botão liga/desliga; o jeito é compreender a marcha e seguir em frente. No entanto, há quem não goste desse percurso. Uma vez uma aluna empolgada seguiu minha dica de leitura e começou a ler O MUNDO ASSOMBRADO PELOS DEMÔNIOS, do Carl Sagan (meu grande livro de cabeceira, outra leitura transformadora).

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__________ A menina acabou confessando que estava deprimida por causa do livro. Não faço ideia se ela o terminou ou se deu cabo dele num triturador de papel (uma morte infame, sem dúvida), mas o fato é que existem livros que não são para frouxos (parafraseando Harrison Ford).

__________ Desde a época do ANIMAL MORAL li pencas de livros da mesma temática, alguns geniais, mas aí era reforço, reforma, acréscimo. Nenhum arrebentou a porteira como o livro do Wright (que hoje nem considero o melhor). Passei anos sem ter a mesma sensação de descoberta revolucionária. Até que… veio o ano de 2013 (sim, “apenas” 17 anos se passaram para encontrar outro livro candidato a ponto de inflexão). E começou de forma banal. Achei o livro apenas interessante quando o vi nas prateleiras da Martins Fontes: RÁPIDO E DEVAGAR: DUAS FORMAS DE PENSAR, do Daniel Kahneman. Muita coisa dele nem é propriamente novidade, pois já havia aparecido em outros livros. A diferença é a teorização de inconsciente e a profundidade com que Kahneman aborda o funcionamento da mente humana. Um sujeito que ganha o Nobel de economia sem ser economista tem, de fato, alguma coisa interessante para falar. Eis um “aperitivo” sobre o livro: nosso cérebro tem um fenômeno chamado de priming, onde um estímulo, de forma associativa, evoca especificamente certas ideias inconscientes. Parece bobo? Pois o priming não se restringe a conceitos e palavras. rapido_devagarVeja esse perturbador experimento: grupos de estudantes tiveram que montar frases com uma pequena lista de palavras desconexas. O grupo controle recebeu uma lista com palavras escolhidas aleatoriamente; outro grupo recebeu uma listagem que, de maneira propositada, tinha palavras associadas à velhice, embora de forma indireta (grisalho, esquecido, careca, ruga, etc.). Depois de cada grupo montar as frases, eles foram encaminhados a outro laboratório, em outro prédio. O grupo que trabalhou com palavras relacionadas à velhice demorou mais tempo para chegar ao segundo laboratório (tudo fundamentado estatisticamente). Segundo os pesquisadores, as palavras relacionadas à velhice evocaram de forma inconsciente um traço do comportamento de idosos, o caminhar lento. Isso sem os estudantes se darem conta! Esse fenômeno de uma ideia influenciando uma ação inconsciente é conhecido como efeito ideomotor. Da mesma forma, alunos que viam cartuns enquanto tinham que segurar um lápis entre os dentes (forçando o sorriso de forma apenas motora) achavam os cartuns mais engraçados do que aqueles que eram orientados a franzir o rosto (atitude de concentração e seriedade). Uma coisa aparentemente desconexa influenciando de forma profunda nossas emoções e pensamentos. Novidade? Não totalmente, mas não lembro de uma descrição tão apurada e com a fundamentação científica que encontrei no livro do Kahneman.

__________ Talvez valha a pena fazer uma careta de profunda reflexão durante a sua próxima prova de imunologia.

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____________Finalmente terminei o livro sobre Ensino/Aprendizagem que considero o MELHOR que já li até hoje: DICAS DE ENSINO, de MARILIA SVINICKI & WILBERT J. MCKEACHIE. A maneira como ele veio parar nas minhas mãos ilustra bem um aspecto que permeia nossas vidas: o acaso. Ninguém me indicou ou vi resenha sobre ele em sites da Internet. Eu estava na Martins Fontes fazendo uma das coisas que amo fazer: passear por livrarias a esmo, olhando de tudo um pouco, como se estivesse num delicioso labirinto de ideias. Sempre costumo olhar as estantes de livros dedicados a ensino. Das centenas que havia lá, após uns 30 minutos olhando, peguei esse sem botar muita fé – afinal o título dele não é muito chamativo; parece muito vago, quase superficial. Para minha sorte, ele se mostrou a mais completa abordagem de estudo da prática docente universitária que já vi. E amparado por extensa bibliografia. É uma benção quando se encontra um livro assim, porque aqui no Brasil, grande parte dos livros relacionados ao tema são um blábláblá de pedagogês que só serve para mostrar as habilidades do autor em falar muito e não dizer nada, misturando acrobacia verbal e ideologia esquerdopata do pior nível.
____________Aprendi muito com esse livro e tenho uma lista de ideias interessantes a aplicar em aula e também muita sugestão de trabalhos científicos que podem ser realizados nessa área. Um livro que aconselho fortemente para quem gosta da arte de ser professor.

Tive a chance de trocar alguns e-mails no passado com o professor Pierluigi – e nem foram sobre concordâncias, mas sem dúvida ele é uma pessoa direta que diz algumas verdades que a maioria dos pedagogos adestrados no “eduquês” prolixo e esvaziado de conteúdo jamais abordam:

__________Tenho visto meus alunos recém formados imersos em angústias sobre suas carreiras, e o mote se repete e pode ser resumido na seguinte frase: “Preciso publicar mais”. Sim, o foco desses estudantes é aumentar o número de artigos científicos publicados. Eles estão sendo pautados pelo “Publish or Persish” que transformou a ciência numa corrida de fórmula um. Essa é a política atual do país: foco na produção, e não em ideias ou ideais. Nunca vejo esses alunos imersos na pó-graduação comentando: “Tenho uma ideia muito interessante que pode resolver um problema importante”. Isso se tornou secundário. Na minha mais íntima percepção, esse foco de resultados (numéricos) destrói a criatividade e cria a ilusão de crescimento, tornando a ciência mais um ser balofo e inchado que grande e robusto. Mas a unanimidade da academia diz outra coisa e acaba por nos calar.
__________Mas há momentos em que o pensamento parece atrair a resposta certa às suas angústias. Hoje tive o prazer de descobrir que esse pensamento não é um simples achismo pessoal meu. É um fato, e está muito bem colocado no vídeo do TED com DANIEL PINK. São apenas 20 minutos, que dispensam comentários:

Acabou de sair meu novo artigo no IMIL. Discuto dois artigos do Cláudio Moura de Castro que saíram na Veja acerca de tamanho de sala de aula (número de alunos):

http://www.imil.org.br/destaque/super-size-pedaggico-superlotar-salas-de-aula-virou-moda/

__________Quando eu era aluno na USP, o professor José Goldemberg era o reitor. Lembro que uma comissão de alunos do centro acadêmico, do qual eu fazia parte, foi até ele defender o nome de João Palermo Neto para diretor da Faculdade de Veterinária (ele constava da lista tríplice). Goldemberg tinha fama de duro e inflexível, mas isso era o que a esquerda da época gostava de divulgar. Ele recebeu a comissão de alunos e nos ouviu. Semanas depois, o escolhido foi o prof. Palermo. Não achei que a escolha foi por nossa causa, mas certamente isso mostrou que a imagem que se fazia dele era bastante deturpada. Fiquei com uma boa imagem dele que só melhorou com o passar dos anos ao ler suas entrevistas e artigos. Agora, ao ver sua declaração nesta entrevista acerca da importância da meritocracia, confirmo minhas impressões: ele foi e é uma referência de clareza intelectual e coragem, especialmente em tempos de patrulhamento politicamente correto.

Tive o prazer de ver uma das minhas crônicas publicadas no Instituto Millenium. O assunto: burocracia. Quem é pesquisador ou ligado a área científica sabe da colossal burocracia brasileira no nosso meio. Quem curtir um texto irônico e engraçado, leia o texto e prestigie o lado artístico de um microbiologista bípede:
http://www.imil.org.br/artigos/o-afago-da-mao-pesada-estado/

    _______Uma colega e amiga divulgou recentemente uma dica sobre cursos gratuitos via Internet de várias instituições no mundo todo. Eu já havia lido a reportagem no jornal (http://www1.folha.uol.com.br/tec/1194183-melhores-universidades-do-mundo-oferecem-cursos-gratuitos-pela-internet.shtml), mas só dei atenção quando ela

    divulgou que está cursando uma dessas disciplinas on line. Ela está gostando bastante. Eu tenho interesse de vivenciar um desses cursos para aprender como é o funcionamento deles. Na reportagem da Folha são listados alguns links de universidades e institutos que reúnem vários cursos gratuitos:

  • 1. O EDX (https://www.edx.org/), que reúne cursos das Universidades de Harvard, Berkeley, Georgetown, Texas e do MIT.

  • 2. O Coursera (https://www.coursera.org/), que tem cursos de uma infinidade de instituições, entre elas as Universidades de Stanford, Florida, Toronto, Londres, Duke, Hong-Kong, Maryland, Washington, Illinois, Edinburgo, Ohio, Columbia e muitas outras.


    _______Essa é uma oportunidade extraordinária, que estudantes de 30 anos atrás nem podiam sonhar. Mas ainda que seja fantástico, não consigo deixar de ver algumas questões incômodas.

    _______Ao comentar isso com um colega que não é da área, ele disse em tom de brincadeira: “Agora vocês vão perder o emprego!”. Bom, essa é uma dúvida a se considerar, em vista de muitas escolas estarem enxugando currículos, o corpo docente, a carga horária e, em última instância, a vida universitária. Talvez um dia realmente professor seja uma excrecência num sistema dominado por mecanismos de “supermassa”. A reportagem traz um exemplo para reflexão.


    _______O professor Walter Sinnott-Armstrong, da Universidade Duke (EUA) é citado na reportagem da Folha como um entusiasta. Ele tem um curso sobre a arte do raciocínio e da argumentação. Seu curso tem 166.872 estudantes. Primeira pergunta: como é possível coordenar um curso para um exército de pessoas que supera a população individual da maioria das cidades brasileiras? A resposta parece estar na “automação” do processo. Algoritmos de computador organizam e direcionam o fluxo de acessos e respostas dos estudantes. E supostamente a interação entre os estudantes é suficiente para a atividade formativa do curso. Não consigo imaginar o professor Walter respondendo a e-mails dos seus cento e tantos mil estudantes, como professores presenciais fazem de fato. Então aí, por uma fresta escondida, vemos que o princípio qualidade/quantidade continua valendo, a despeito da apologia entusiástica de amplos setores da sociedade. É possível dar aula para duzentas mil pessoas? Com a Internet sim! Mas qual o papel do professor nisso? A interação dele com cada aluno é praticamente zero. Se cada aluno enviar um e-mail semanal demandando uma interação de qualquer tipo, ele terá 670.000 mensagens de e-mail para responder em
    um mês. Se cada mensagem demandar APENAS dois minutos (o que é totalmente irrealista, a não ser que vc considere que uma interação seja um simples “OK”), ele vai levar 22.000 horas para responder toda essa avalanche. Como o mês tem 24 x 30 = 720 horas, parece que tem alguma coisa errada aí. Aos que querem uma introdução sem maiores aprofundamentos, talvez seja interessante. Mas chamar o rabo de um cachorro de pata não vai transformá-lo em um animal de cinco patas: a limitação física (e consequentemente de qualidade) é inerente e inegável. Quantidade não é qualidade.



    P.S.: Fiquei curioso de como é a validação de autenticidade dos certificados. Talvez haja algum mecanismo como o que certifica documentos jurídicos via Rede.

    P.S. 2 (17/01/2013) Hoje a página do Estadão na Internet disponibilizou um vídeo do Salman Khan discutindo ensino, cursos on line e o novo papel das universidades. Achei simples e interessante:

No final de outubro ocorreu o XXI Congresso Latino-Americano de Microbiologia. Participei das atividades de ensino e aqui vai um resumo útil:

1. Minicurso sobre TBL – Sigla de “Team Based Learning”, ou Aprendizagem Baseada em Equipes. Uma variante do PBL, com a vantagem de poder ser adotada apenas por disciplinas isoladas, e não por todo o curso. um ponto extremamente positivo do TBL, pois o torna muito ágil e fácil de ser implantado. Quem ministrou o minicurso foi o professor Newton Carlos Polimeno, da PUC-SP, que eu já conhecera no Congresso Brasileiro de Microbiologia. Foi uma excelente escolha das coordenadoras da área de ensino, as profas. Marcela Pellegrini Peçanha e Karla Tereza Silva Ribeiro. O prof. Polimeno é competente e carismático, e sua atividade já valeu o congresso.

Professor Polimeno, da PUC-SP

Vai aqui um resumo de roteiro de TBL que praticamos lá:
a) Fornecimento de bibliografia aos alunos. A sua leitura pode ser feita na própria aula, se houver tempo. Isso contorna o famoso problema de boa parte dos alunos chegarem para a atividade sem terem se preparado.
b) Passar um teste individual sobre os conceitos principais constantes naquela bibliografia. DETALHE: não existe uma única alternativa correta; todas são possíveis, mas uma é a MELHOR.
c) Os alunos não indicam apenas uma alternativa. Cada questão “ganha” 4 pontos para serem distribuídos entre as alternativas. Assim, se há convicção de uma alternativa ser a melhor, é possível atribuir 4 pontos para ela. Mas se existe dúvida entre duas alternativas, pode-se apostar 2 pontos para cada uma, e assim por diante. Isso minimiza o “chute”.
d) Os estudantes se juntam em grupos. Agora cada questão é discutida em grupo e respondida, fazendo-se uso do mesmo sistema de pontuação anterior. Nessa hora os alunos debatem e argumentam entre si, defendendo seus pontos de vista. Ao final, haverá uma resposta individual e uma resposta do grupo.
e) Um gabarito para que os próprios alunos confirmem suas respostas é fornecido. Ele vem com etiquetas que, quando destacadas, exibem o resultado de cada questão.
f) Há uma pontuação individual e uma pontuação do grupo. Diante desses resultados, o grupo precisa discutir esses resultados (por que fulano se saiu melhor que o grupo? Por que ciclano se saiu pior? Por que beltrano que se saiu melhor não conseguiu convencer o restante do grupo? Etc.)
g) Cada grupo pode, por escrito e baseado na literatura, contestar o professor com UMA pergunta (o professor tem que estar preparado para discutir cada alternativa – ou seja, ele deve ter uma miniaula para cada possibilidade).
h) Em outro momento (outro dia) os alunos recebem um problema real ligado à sua área de atuação profissional relacionado aos testes e à temática inicial. Três perguntas são feitas em relação a cada problema. Cada grupo recebe “tabuletas” com as alternativas. Na hora da discussão, cada grupo mostra a tabuleta da resposta a cada pergunta do professor, a quem cabe mediar o debate. O professor pode escolher indivíduos de cada grupo para justificar escolhas ou não-escolhas. Isso levaria mais umas duas horas, ou mais.

- A duração de todo esse processo é em torno de 5 a 6 horas.
- O professor NÃO esclarece dúvidas durante os debates.
- A estratégia é construída para a colaboração, e não para a competição
- Se aplica bem para turmas grandes (mais de 80 alunos)
- Como é uma estratégia que exige bastante empenho ativo dos alunos, eles costumam não gostar, A PRINCÍPIO.

Eu realmente achei instigante o método, embora não tenhamos tido a chance de desenvolver todos os passos pela falta de tempo. Aliás, esse me parece ser o grande problema dessa estratégia (como de todas as estratégias ativas de aprendizagem): TEMPO. É muito fácil sonhar com o mundo ideal, mas realizá-lo é outra história. O TBL precisa de muito tempo, e é o que menos se tem nos cursos de nível superior, especialmente naquelas escolas que cortam carga horária de disciplinas e docentes para enxugar gastos.

Para encerrar, o professor Polimeno passou um vídeo interessante que debate a modernização do ensino, com Alvin Toffler e esposa:




Fazendo um gancho com a questão do tempo aproveito para falar de um exemplo realista, que apresentei na mesa redonda da qual era participante (“Vestindo a tanga no elefante: conteúdo mínimo, carga horária mínima e a avaliação pelo júri (MEC)”).

Imagine que você tem 44 temas de uma ementa para cumprir em 12 dias, com uma carga horária de apenas 2 horas-aula. Inacreditável? Também acho. Mas isso é realidade em várias disciplinas de algumas universidades. O que fazer com isso? Digamos que vc resolve cortar o número de temas da ementa pela metade: 22. E digamos que vc consiga reunir temas afins para serem tratados no mesmo processo. Com otimismo, talvez fosse possível condensar esses 22 temas selecionados em 7 grandes temas. Cada grande tema necessitaria 5 horas para ser abordado. Pois digamos que fosse possível abordá-los em 4 horas. Levaríamos duas semanas por grande tema. Nem assim conseguiríamos abordar a metade do que foi colocado na ementa! Como disse o professor Polimeno, por isso talvez fosse melhor adotar o sistema de COMPETÊNCIAS e não de CONTEÚDO. Minha dúvida é se o sistema de competências não traria um grau grande demais de subjetividade. E, de qualquer maneira, quando falta pão (tempo), todos brigam e ninguém tem razão. Será que essa carga horária espremida não iria ser fatal também para um sistema de competências?

Coloquei no meu site a uma bibliografia inspiradora para o tema em questão: http://www.microbiologia.vet.br/vestindo_a_tanga_no_elefante.pdf

2. Outra atividade que merece destaque foi a palestra “A aplicação eficiente da tecnologia no contexto atual do ensino-aprendizagem”, do prof. Cesar Augusto Amaral Nunes, Diretor da OORT Tecnologia e Pesquisador associado ao Núcleo de Pesquisas em Inovação Curricular da Faculdade de Educação da USP. É muito difícil traduzir a sua palestra em um texto simples, mas ele mostrou o EDMODO (www.edmodo.com), uma “rede social” voltada para uso educacional que permite fazer um registro da participação dos alunos. Com isso, temos a geração de produtos intermediários que nos permitem avaliar a aprendizagem e criar uma espécie de “sala de aula expandida”. Ele falou também do uso EM TEMPO REAL de laptops, tablets e celulares (mas para isso seria necessário WiFi nas salas, coisa incomum na maioria das escolas). E algo interessante: destacou a questão da falta de tempo e maneiras de não se levar trabalho para casa usando tecnologia em tempo real.

Professor César Nunes

Professor César Nunes

Eu gostaria de usar o EDMODO, mas sem WiFi fica difícil. Uma pena. Em muitas escolas não existe Wi-Fi. Quando dou aula, preciso fazer uso da conexão do MEU celular para acessar a Internet. A justificativa de que podemos fazer uma reserva dos computadores da biblioteca esbarra em problemas elementares: se eu quiser usar a Internet em TODA aula terei que fazer uma reserva toda semana e rezar para que nenhum outro professor queira usar a Internet. Afora a evidente e desnecessária burocracia, esse sistema é impraticável com mais de um professor querendo usar a rede. Uma vez me queixei e recebi a justificativa assombrosa de que os próprios professores não queriam WiFi na sala de aula! Acho inacreditável que algum professor tenha uma posição tão contraproducente. Tão inacreditável quanto aquela espremida carga horária lá do começo do texto.

  • Primeira impressão do COBEM (Congresso Brasileiro de Educação Médica): os trabalhos da área de ensino continuam se centrando em avaliações subjetivas e não quantificáveis. Muitos adjetivos, emoções, fotos e, eventualmente, algum questionário perguntando se os alunos gostaram da nova estratégia. Assim como nos congressos de microbiologia, poucos trabalhos que façam uma aferição do aprendizado com fundamentação estatística. Não é à toa que a área de ensino continua sendo o patinho feio.


  • No Simpósio “Uso da tecnologia da informação para auxiliar as ações integradoras na educação na saúde“, infelizmente perdi parte da fala do prof. Chao Lung Wen, que demonstrou um software sobre o corpo humano (Homem virtual) e disse uma coisa simples mas percuciente: o uso adequado da tecnologia nos permite fazer melhor uso do TEMPO. Ou seja, uma atividade de aprendizagem que levaria 3 horas pode durar apenas 30 minutos com o uso de tecnologia, e com isso podemos usar o tempo restante para novos aprendizados, reforço do que foi aprendido ou qualquer outra coisa. Raramente vejo alguém citar explicitamente a questão do tempo no aprendizado. Há um trabalho muito interessante sobre isso. Pena ele não ser gratuito:
  • no site da editora ele custa 35 euros (!), mas pelo SCAD (Serviço Cooperativo de Acesso a Documentos – http://scad.bvs.br/) talvez seja possível obtê-lo por R$ 8,00.

  • Outra coisa interessante que ele citou foi a formação de um núcleo envolvendo alunos e professores para discutir as tecnologias que podem ser adotadas em aula. Embora eu faça isso informalmente, penso que formar um grupo para debater essas ideias é mais motivante e certamente seria mais produtivo. Essa é uma ideia que fica para meu próximo semestre.
  • Outra atividade muito interessante foi a apresentação do pessoal da biblioteca da FM-USP. Mostrando incrível boa vontade , Valéria Vilhena e Suely Campos Cardoso falaram sobre as facilidades que a biblioteca da Faculdade de Medicina da USP oferece (o site deles é www.fm.usp.br/biblioteca/); mas muitas dessas facilidades têm que usufruídas in loco. E falaram também generalidades sobre bases de dados. Uma síntese:
  • 1. Portal de busca integrada do SiBi: http://www.sibi.usp.br/buscaintegrada/
  • O SiBi é o sistema integrado de bibliotecas da USP, e nesse endereço aí em cima é possível fazer buscas em toda a base de informação vinculada à USP.
  • 2. BDTD do IBICT – Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações: http://bdtd.ibict.br/
  • 3. Guia de apresentação de dissertações, teses e monografias – um guia feito pela equipe da biblioteca FM-USP baseado nas normas de Vancouver: http://www.fm.usp.br/gdc/docs/biblioteca_217_manual_completo_2012.pdf Creio ser esta uma ótima proposta de padronização (assim escapamos da famosa jabuticaba brasileira, as normas da ABNT, que mudam constantemente e burocratizam um processo simples de padronização internacional).
  • 4. PubMed e PubMed Central – ambos são conhecidas bases de dados ligadas ao NCBI (National Center for Biotechnology Information: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/). Em relação a artigos de acesso livre, o primeiro inclui alguns artigos gratuitos financiados pelo NCBI e artigos que as editoras disponibilizam gratuitamente para promover periódicos. O segundo envolve apenas artigos gratuitos financiados pelo NCBI. Nas minhas experiências de busca, não necessariamente o PubMed é mais abrangente – ao que parece, há algum tipo de “bug” que faz com que os resultados não sejam os esperados. Minha sugestão é sempre realizar uma busca em ambas as bases e comparar os resultados.
  • 5. Biblioteca Virtual em Educação em Ciências da Saúde: http://www.bvs.fm.usp.br/php/index.php
  • 6. SCIELO – Base de artigos científicos gratuitos que envolve Brasil, América Latina e Caribe. Sugestão das bibliotecárias: buscar sempre determinado assunto em três idiomas (português, inglês e espanhol). Os resultados diferem em cada busca.
  • 7. Lilacs - Semelhante ao SCIELO, mas mais abrangente (começa em 1982): http://lilacs.bvsalud.org/
  • 8. DeCS – Descritores em Ciências da Saúde. É uma base de dados de termos unificados de indexação de artigos, periódicos, livros, anais, etc.. Foi desenvolvido a partir do MeSH, Medical Subjects Headings (http://www.nlm.nih.gov/mesh/). É muito útil para organizar listagens de palavras-chave de busca, ou seja, sua busca no PubMed fica mais eficiente se você usar esses termos padronizados. http://decs.bvs.br/

  • Outra atividade muito interessante foram os MAPAS CONCEITUAIS (ou Mapas Mentais). Apresentados por Sílvia Itzcovici Abensur e Maria Eugenia Vanzolin, foi muito útil e me deu grande satisfação. Eu já havia tentado usar esses mapas conceituais antes, a partir da leitura de um livro chamado “Cartografia cognitiva” de Alexandre Okada. O livro é ótimo, mas começar uma estratégia do zero sozinho, sem ter com quem trocar ideias não foi produtivo. Já no curso do Cobem, aprendi muito.

    Cartografia Cognitiva

  • Primeiro, mapas conceituais NÃO SÃO fluxogramas. Estes últimos são enxutos e meramente prescritivos, fornecendo uma sequência de procedimentos. Já os Mapas Conceituais são “estruturadores do conhecimento”, servindo para trabalhar com grandes quantidades de dados, explicitando a lógica entre seus componentes. Não existem mapas conceituais iguais – ou seja, três pessoas fazendo um mapa sobre um assunto podem produzir 3 mapas diferentes, e os 3 perfeitamente válidos. Outra coisa interessante: os mapas conceituais são dinâmicos, mudam com o tempo e a idade.

  • A grande utilidade dos mapas conceituais é que eles facilitam a aprendizagem de quem os constrói. Ou seja, eles não se prestam propriamente para serem lidos – isso pode até ser útil, mas o que importa é que um aluno FAÇA um mapa conceitual sobre um assunto. É isso que vai ajudá-lo a refletir sobre um tema e criar clareza sobre aquele assunto.

  • O principal software é o Cmaptools: www.cmaptools.com Outra página com diversos softwares é www.cmappers.net

  • Uma dica: dentro das caixas devem constar substantivos ou adjetivos, e nas palavras de ligação, verbos.

  • Senti que a Imunologia é uma disciplina que pode se beneficiar especialmente da aplicação desses mapas. Montei um breve mapa da resposta imune para dar um exemplo: