Drauzio Varella e o quadro negro

       Uma colega veterinária que passou há pouco tempo pelos bancos da universidade que eu passei há vinte e cinco anos atrás me mandou um texto muito bacana sobre o quadro negro. Como professor que escolheu esta carreira por desejo e não por falta de opção como muitos, adoro usar o quadro negro. Ele permite que eu construa o raciocínio no ritmo mais pedagógico possível, faça desenhos estilizados que chamam a atenção dos alunos e mantém o foco na aula (além de evitar as típicas sonecas de prolongadas sessões de Datashow). Lógico que não substitui uma foto, mas nem precisa: o Datashow não precisa ser abolido, apenas usada de forma adequada. Sinto que ele reforça a afetividade com a classe. E esta não é uma percepção vaga. Já há alguns anos venho perguntando aos alunos se preferem uma aula predominantemente com quadro negro ou predominantemente com Data Show: poucas vezes colhi resultados tão sistemáticos e quase unânimes: a grande maioria prefere o quadro negro. Os motivos que relatei me parecem explicar parcialmente essa vitória esmagadora. E fiquei feliz de receber o texto dessa colega, a Mariana, no qual uma pessoa que gosto muito dos textos e de várias ideias – Drauzio Varella – faz justamente a defesa que eu gostaria de ouvir. Infelizmente não posso reproduzir o texto inteiro, pois ele é de acesso restrito do UOL, mas aqui vai um trecho:


       “Que falta faz o quadro-negro, a maior invenção da didática em todos os tempos, substituída mais tarde pela insossa projeção de slides e, posteriormente, pela praga computadorizada que se disseminou da escola primária aos congressos de especialistas, chamada “data-show”, impessoal, capaz de transformar mestres inspirados em expositores sem imaginação.
       No quadro-negro o giz desenha imagens criadas em tempo real com o raciocínio desenvolvido pelo professor, personagem central da transmissão do conhecimento e foco de todas as atenções. Os recursos audiovisuais modernos projetam a informação de forma impessoal, muitas vezes antecipadamente às palavras do expositor, de modo que a tela iluminada compete com ele e monopoliza a atenção da platéia. O audiovisual, método útil, porém complementar, rouba a cena do protagonista; enquanto o quadro-negro é o palco no qual ganham vida os pensamentos daquele que ensina.
       O bom professor é um ator emocionado com o texto que pretende ensinar. Ele procura fazê-lo de forma obstinada, de frente para seus discípulos, se possível em pé, com voz firme e olhar determinado, fixo nos olhos deles para perscrutar como reagem seus espíritos a cada palavra pronunciada. É possível criar essa magia com um ser falando no escuro, relegado ao papel de coadjuvante de uma tela de plástico na qual se desenrola a ação?

Drauzio Varella

       E aqui vai uma frase do texto que eu gostaria de destacar:
O bom professor é um ator emocionado com o texto que pretende ensinar