A montanha pariu um rato. Morto.


__________ A expectativa era grande. O tema instigava por não se apresentar como uma mirabolante cura milagrosa: “A reinvenção da aula expositiva”. Fiquei atraído porque ainda é com aulas expositivas que as graduações se sustentam. A proposta parecia ao mesmo tempo realista e criativa. Qual seria essa nova estratégia que se propunha a recriar o modelo de aula tão consagrado?* Além disso, seria ministrada por um professor do famoso Campus de São Carlos da USP, e por alguém que era engenheiro – isso afastava o risco de pedagogos “profissionais” autistas que se especializam em retórica rebuscada para falar muito e não dizer nada. Também o formato proposto era interessante: primeiro a exposição do método pelo professor que o desenvolvera; depois, seus alunos apresentariam temas variados aplicando o método. Achei sinceramente atraente. Mesmo com toda essa boa impressão inicial e motivado pelo grupo de colegas que se inscreveram, tinha lá minhas reservas. Por que chamar um simples curso de “Congresso de Ensino Universitário (CEU)”? Ótimo para o Lattes, pois fica parecendo um evento de certa magnitude, mas na verdade é apenas um minicurso. Embora houvesse motivos bem humorados para a escolha desse nome (“Vamos para o CEU”), acho que ficaria melhor como uma história folclórica do que como realidade registrada. Mas isso era apenas detalhe, ainda mais quando, ao chegar lá, pude constatar que a organização estava boa e havia um clima de acolhimento e simpatia no ar. Soava promissor.

__________ Dito tudo isso, vou adiantar e resumir o resultado final: frustração.

__________ José Carlos A. Cintra, o idealizador da suposta nova abordagem, tem carisma e sabe ser um bom comunicador. Mas quando ele desfilou por aproximadamente uma hora e meia seu método, o desapontamento foi grande. Sua colocação de que as aulas “conteudistas” estão obsoletas e não dão mais conta do atual excesso de informação e nem levam em conta as novas ferramentas digitais não trouxe uma única novidade para mim e para meus colegas. Lembro desse tipo de enfoque ser percebido, discutido e modificado há mais de dez anos. Sua estratégia de apresentação de aula nem de longe constitui novidade para professores de escolas particulares que tem que se adequar a cargas horárias apertadas e lidar com alunos com diferentes graus de repertório e preparação intelectual. Trocando em miúdos: fomos assistir a um curso de gastronomia mediterrânea e nos ensinaram a fazer arroz para hipertensos.

__________ Além do vazio de conteúdo (realmente ele levou a extremos sua crítica ao conteudismo…), a discussão sobre relação professor/aluno e ensino/aprendizagem soou como demagogia: alunos são vítimas, professores são algozes. Se ele não quis dizer isso, então tropeçou nas colocações, pois essa foi a impressão que ficou em diferentes cabeças que lá estavam presentes. Que existem maus professores, não há obviedade ululante maior — assim como há maus dentistas, maus pintores e maus empresários. Se tivesse partido disso, seria verdade, embora constituísse um truísmo bobo. Mas a coisa partiu de colocar os alunos genericamente como vítimas, esquecendo que são agentes no processo de aprendizagem. O cliente tem razão quando tem razão – parafraseando a clássica regra de ouro dos restaurantes. Essa pobreza de discussão já enviesou o debate logo de cara, parecendo funcionar mais como adulação do corpo discente. Um simplismo que se assemelha muito a atacar políticos e bajular eleitores — esquecendo-se que estes últimos são os responsáveis pelo poder dado aos primeiros. Esse tipo de abordagem é superficial, populista e, no limite, parece panfletagem partidária.

__________ Para mim o desapontamento foi muito grande. Constato mais uma vez que, apesar da pauta ensino/aprendizagem estar no topo da agenda, é incrivelmente difícil encontrar cursos e treinamentos que REALMENTE tragam ideias novas, divulguem conceitos inovadores e apliquem novas estratégias de aula. (Há apenas dois anos atrás participei de um Congresso “Internacional” de avaliação no ensino, em São Paulo. Terminei o evento perplexo com a habilidade geral de criar espuma. Para ganhar a marca de “Internacional”, foram trazidos meia dúzia de pesquisadores de países ibéricos. Os palestrantes raramente mostravam dados objetivos com fundamentação estatística. E não havia o menor constrangimento de fugir completamente do tema – numa das palestras que pretendia comparar o ensino da Finlândia com o do Brasil, a Finlândia foi citada UMA vez, de forma vaga e subjetiva, sem qualquer dado ou informação precisa de seus métodos avaliativos. Era como se falássemos de um antepassado distante, o avô de um tataravô, sobre o qual o conhecimento chegara até nós por transmissão oral. Em compensação, fomos brindados com histórias afetivas e pessoais de um homem que esbanjava simpatia e desprendimento em ignorar o tema central de sua exposição. Parecia que eu estava em um clássico encontro de auto-ajuda, com direito à venda de livros dos palestrantes no final.)

__________ O término do CEU foi melancólico. Embora tenha tratado de algumas ideias com as quais concordo, não inovou nada e foi muito pobre em conteúdo. Talvez para um recém formado completamente cru na arte da docência houvesse ali um ponto de partida. Nesse caso, a divulgação do evento foi equivocada, pois não houve reinvenção nenhuma. Ainda cheguei a assistir a apresentação de um aluno aplicando o método do prof. Cintra, mas a absoluta falta de novidade na exposição e no uso do Datashow foi o golpe de misericórdia. Abandonamos o evento desiludidos.

__________ Mas não saímos de lá do mesmo jeito que entramos. Os debates e as trocas de ideias que ocorreram entre nós nos corredores instilaram vida nesses dois dias. Acabamos transformando o arroz sem sal em sopa de pedra. Uma lição de gastronomia intelectual.

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* Antes que alguém venha a dizer que esse tipo de aula foi há muito superado, um detalhe: há diferentes modelos de aulas expositivas, incluindo aulas dialogadas e com debates que em nada se parecem com essas aulas em que o professor apenas fala e os alunos anotam.