Impressões sobre o COBEM 2012

  • Primeira impressão do COBEM (Congresso Brasileiro de Educação Médica): os trabalhos da área de ensino continuam se centrando em avaliações subjetivas e não quantificáveis. Muitos adjetivos, emoções, fotos e, eventualmente, algum questionário perguntando se os alunos gostaram da nova estratégia. Assim como nos congressos de microbiologia, poucos trabalhos que façam uma aferição do aprendizado com fundamentação estatística. Não é à toa que a área de ensino continua sendo o patinho feio.


  • No Simpósio “Uso da tecnologia da informação para auxiliar as ações integradoras na educação na saúde“, infelizmente perdi parte da fala do prof. Chao Lung Wen, que demonstrou um software sobre o corpo humano (Homem virtual) e disse uma coisa simples mas percuciente: o uso adequado da tecnologia nos permite fazer melhor uso do TEMPO. Ou seja, uma atividade de aprendizagem que levaria 3 horas pode durar apenas 30 minutos com o uso de tecnologia, e com isso podemos usar o tempo restante para novos aprendizados, reforço do que foi aprendido ou qualquer outra coisa. Raramente vejo alguém citar explicitamente a questão do tempo no aprendizado. Há um trabalho muito interessante sobre isso. Pena ele não ser gratuito:
  • no site da editora ele custa 35 euros (!), mas pelo SCAD (Serviço Cooperativo de Acesso a Documentos – http://scad.bvs.br/) talvez seja possível obtê-lo por R$ 8,00.

  • Outra coisa interessante que ele citou foi a formação de um núcleo envolvendo alunos e professores para discutir as tecnologias que podem ser adotadas em aula. Embora eu faça isso informalmente, penso que formar um grupo para debater essas ideias é mais motivante e certamente seria mais produtivo. Essa é uma ideia que fica para meu próximo semestre.
  • Outra atividade muito interessante foi a apresentação do pessoal da biblioteca da FM-USP. Mostrando incrível boa vontade , Valéria Vilhena e Suely Campos Cardoso falaram sobre as facilidades que a biblioteca da Faculdade de Medicina da USP oferece (o site deles é www.fm.usp.br/biblioteca/); mas muitas dessas facilidades têm que usufruídas in loco. E falaram também generalidades sobre bases de dados. Uma síntese:
  • 1. Portal de busca integrada do SiBi: http://www.sibi.usp.br/buscaintegrada/
  • O SiBi é o sistema integrado de bibliotecas da USP, e nesse endereço aí em cima é possível fazer buscas em toda a base de informação vinculada à USP.
  • 2. BDTD do IBICT – Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações: http://bdtd.ibict.br/
  • 3. Guia de apresentação de dissertações, teses e monografias – um guia feito pela equipe da biblioteca FM-USP baseado nas normas de Vancouver: http://www.fm.usp.br/gdc/docs/biblioteca_217_manual_completo_2012.pdf Creio ser esta uma ótima proposta de padronização (assim escapamos da famosa jabuticaba brasileira, as normas da ABNT, que mudam constantemente e burocratizam um processo simples de padronização internacional).
  • 4. PubMed e PubMed Central – ambos são conhecidas bases de dados ligadas ao NCBI (National Center for Biotechnology Information: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/). Em relação a artigos de acesso livre, o primeiro inclui alguns artigos gratuitos financiados pelo NCBI e artigos que as editoras disponibilizam gratuitamente para promover periódicos. O segundo envolve apenas artigos gratuitos financiados pelo NCBI. Nas minhas experiências de busca, não necessariamente o PubMed é mais abrangente – ao que parece, há algum tipo de “bug” que faz com que os resultados não sejam os esperados. Minha sugestão é sempre realizar uma busca em ambas as bases e comparar os resultados.
  • 5. Biblioteca Virtual em Educação em Ciências da Saúde: http://www.bvs.fm.usp.br/php/index.php
  • 6. SCIELO – Base de artigos científicos gratuitos que envolve Brasil, América Latina e Caribe. Sugestão das bibliotecárias: buscar sempre determinado assunto em três idiomas (português, inglês e espanhol). Os resultados diferem em cada busca.
  • 7. Lilacs - Semelhante ao SCIELO, mas mais abrangente (começa em 1982): http://lilacs.bvsalud.org/
  • 8. DeCS – Descritores em Ciências da Saúde. É uma base de dados de termos unificados de indexação de artigos, periódicos, livros, anais, etc.. Foi desenvolvido a partir do MeSH, Medical Subjects Headings (http://www.nlm.nih.gov/mesh/). É muito útil para organizar listagens de palavras-chave de busca, ou seja, sua busca no PubMed fica mais eficiente se você usar esses termos padronizados. http://decs.bvs.br/

  • Outra atividade muito interessante foram os MAPAS CONCEITUAIS (ou Mapas Mentais). Apresentados por Sílvia Itzcovici Abensur e Maria Eugenia Vanzolin, foi muito útil e me deu grande satisfação. Eu já havia tentado usar esses mapas conceituais antes, a partir da leitura de um livro chamado “Cartografia cognitiva” de Alexandre Okada. O livro é ótimo, mas começar uma estratégia do zero sozinho, sem ter com quem trocar ideias não foi produtivo. Já no curso do Cobem, aprendi muito.

    Cartografia Cognitiva

  • Primeiro, mapas conceituais NÃO SÃO fluxogramas. Estes últimos são enxutos e meramente prescritivos, fornecendo uma sequência de procedimentos. Já os Mapas Conceituais são “estruturadores do conhecimento”, servindo para trabalhar com grandes quantidades de dados, explicitando a lógica entre seus componentes. Não existem mapas conceituais iguais – ou seja, três pessoas fazendo um mapa sobre um assunto podem produzir 3 mapas diferentes, e os 3 perfeitamente válidos. Outra coisa interessante: os mapas conceituais são dinâmicos, mudam com o tempo e a idade.

  • A grande utilidade dos mapas conceituais é que eles facilitam a aprendizagem de quem os constrói. Ou seja, eles não se prestam propriamente para serem lidos – isso pode até ser útil, mas o que importa é que um aluno FAÇA um mapa conceitual sobre um assunto. É isso que vai ajudá-lo a refletir sobre um tema e criar clareza sobre aquele assunto.

  • O principal software é o Cmaptools: www.cmaptools.com Outra página com diversos softwares é www.cmappers.net

  • Uma dica: dentro das caixas devem constar substantivos ou adjetivos, e nas palavras de ligação, verbos.

  • Senti que a Imunologia é uma disciplina que pode se beneficiar especialmente da aplicação desses mapas. Montei um breve mapa da resposta imune para dar um exemplo:


PEDAGOGIA PAVLOVIANA?

Uma das coisas que qualquer professor aprecia em uma aula é a participação dos alunos. É isso que dá vida à aula. Turmas apáticas, desinteressadas ou alheias costumam ser uma das mais penosas experiências da docência. Mas nem todos participam ou nem todos participam com igual entusiasmo. O que é normal, pois peixe pedagógico AS PESSOAS NÃO SÃO TODAS IGUAIS. Mas é claro que é desejo nosso que todos participem, ou participem mais. Uma estratégia possível para “estimular” a participação é a atribuição de nota a quem tiver papel ativo na aula.

O problema é a qualidade da participação. Quando a participação é espontânea e sem premiações, percebo que as colocações dos alunos são interessantes, autênticas, criativas e úteis. A atmosfera da sala tem um ar de debate vigoroso e a aula transcorre de forma muito boa. Ainda que uma parte significativa dos alunos não participe, eles se beneficiam do clima positivo da aula e acabam interagindo ao prestar atenção (dado o dinamismo) e terem suas dúvidas comuns esclarecidas. Mas existe essa opção de vincular uma nota, o que acaba supostamente trazendo a sala inteira para o debate, obrigando as pessoas a se colocarem, com dúvidas, curiosidades ou informações relacionadas que complementem o que está sendo discutido.

Da primeira vez que experimentei vincular nota – não sem alguma contrariedade – não consegui deixar de lembrar dos cães de Pavlov, que salivavam ao ouvir uma campainha, pois a vinculavam à chegada da comida. De qualquer forma, achei que o resultado podia ser bom, por trazer quem estava passivo para uma conduta mais ativa. Infelizmente, os resultados foram os piores possíveis.

Todos passaram a participar, mas o nível das colocações simplesmente despencou em qualidade para a mais rasteira condição intelectual. Obrigados a participar, a maioria perguntava coisas óbvias (“isso é isso mesmo?”), fazia ligações pobres com outros assuntos e tirava conclusões primárias de qualquer pequeno conteúdo ministrado. O “timing” da aula ficou horrível, pois a todo instante o desenrolar do assunto era interrompido por alguma dessas colocações que só tiravam o foco da aula. Criou-se um clima muito negativo de falsidade: parte dos alunos não estava interessada em participar, mas se obrigava a isso para poder ganhar nota. Em certo instante, parecia aquele público que é pago para dar risada em programa de humor sem graça. E o que é pior: embora eu não tenha medido, tive a impressão que os alunos que genuinamente participavam de forma animada e faziam colocações inteligentes antes estavam mais retraídos, como se a enxurrada de participações postiças os desestimulassem a se parecer com esse jogo de cena patético.

As pessoas aprenderam mais? Não notei diferença nas notas de prova. Mas houve diferença na qualidade da aula e na minha motivação. Ficou pior. É claro que a aula foi feita para os alunos aprenderem, não para o bem estar do professor, mas é evidente que se o professor se sente desconfortável, é lógica e causal a consequência negativa para o rendimento da aula. Não há como negar isso.

No papel, parece bonito: “aplicamos nova metodologia para incentivar participação dos alunos e elevamos o grau de interação e iniciativa discente em X%, tornando a aula mais dinâmica, etc.” Conversa mole que ignora a questão da QUALIDADE da aula, que envolve dados objetivos mas também SUBJETIVOS que, na minha opinião, não são mensuráveis com os métodos que temos atualmente. Aplicar uma testagem ao final do processo nos permite detectar se houve aprendizado, claro, SEGUNDO A BITOLA DO PROCESSO DE TESTAGEM. Nenhuma testagem é perfeita e frequentemente deixa de lado vários aspectos essenciais de uma aprendizagem, como motivação, iniciativa, criatividade, raciocínio complexo. Aliás, o livro que estou lendo atualmente, “Vida e morte do grande sistema escolar americano”, de Diane Ravitch, destaca claramente as limitações da testagem e os malefícios na confiança cega nessa forma de julgamento do aprendizado. Será motivo do meu próximo texto aqui.

Mas esse é o MEU ponto de vista. Qual a experiência de outros docentes e de seus alunos? Para enriquecer este debate, fiz um convite para que o professor Cássio Negro Coimbra, que está aplicando este modelo com o pessoal da medicina da Unisa numa disciplina integrada, dê sua opinião. E, principalmente, gostaria de ouvir os alunos que estão passando por essa abordagem, pois, afinal, são a parte mais importante do processo.