XXI Congresso Latinoamericano de Microbiologia – Área de Ensino da Microbiologia – Impressões

No final de outubro ocorreu o XXI Congresso Latino-Americano de Microbiologia. Participei das atividades de ensino e aqui vai um resumo útil:

1. Minicurso sobre TBL – Sigla de “Team Based Learning”, ou Aprendizagem Baseada em Equipes. Uma variante do PBL, com a vantagem de poder ser adotada apenas por disciplinas isoladas, e não por todo o curso. um ponto extremamente positivo do TBL, pois o torna muito ágil e fácil de ser implantado. Quem ministrou o minicurso foi o professor Newton Carlos Polimeno, da PUC-SP, que eu já conhecera no Congresso Brasileiro de Microbiologia. Foi uma excelente escolha das coordenadoras da área de ensino, as profas. Marcela Pellegrini Peçanha e Karla Tereza Silva Ribeiro. O prof. Polimeno é competente e carismático, e sua atividade já valeu o congresso.

Professor Polimeno, da PUC-SP

Vai aqui um resumo de roteiro de TBL que praticamos lá:
a) Fornecimento de bibliografia aos alunos. A sua leitura pode ser feita na própria aula, se houver tempo. Isso contorna o famoso problema de boa parte dos alunos chegarem para a atividade sem terem se preparado.
b) Passar um teste individual sobre os conceitos principais constantes naquela bibliografia. DETALHE: não existe uma única alternativa correta; todas são possíveis, mas uma é a MELHOR.
c) Os alunos não indicam apenas uma alternativa. Cada questão “ganha” 4 pontos para serem distribuídos entre as alternativas. Assim, se há convicção de uma alternativa ser a melhor, é possível atribuir 4 pontos para ela. Mas se existe dúvida entre duas alternativas, pode-se apostar 2 pontos para cada uma, e assim por diante. Isso minimiza o “chute”.
d) Os estudantes se juntam em grupos. Agora cada questão é discutida em grupo e respondida, fazendo-se uso do mesmo sistema de pontuação anterior. Nessa hora os alunos debatem e argumentam entre si, defendendo seus pontos de vista. Ao final, haverá uma resposta individual e uma resposta do grupo.
e) Um gabarito para que os próprios alunos confirmem suas respostas é fornecido. Ele vem com etiquetas que, quando destacadas, exibem o resultado de cada questão.
f) Há uma pontuação individual e uma pontuação do grupo. Diante desses resultados, o grupo precisa discutir esses resultados (por que fulano se saiu melhor que o grupo? Por que ciclano se saiu pior? Por que beltrano que se saiu melhor não conseguiu convencer o restante do grupo? Etc.)
g) Cada grupo pode, por escrito e baseado na literatura, contestar o professor com UMA pergunta (o professor tem que estar preparado para discutir cada alternativa – ou seja, ele deve ter uma miniaula para cada possibilidade).
h) Em outro momento (outro dia) os alunos recebem um problema real ligado à sua área de atuação profissional relacionado aos testes e à temática inicial. Três perguntas são feitas em relação a cada problema. Cada grupo recebe “tabuletas” com as alternativas. Na hora da discussão, cada grupo mostra a tabuleta da resposta a cada pergunta do professor, a quem cabe mediar o debate. O professor pode escolher indivíduos de cada grupo para justificar escolhas ou não-escolhas. Isso levaria mais umas duas horas, ou mais.

- A duração de todo esse processo é em torno de 5 a 6 horas.
- O professor NÃO esclarece dúvidas durante os debates.
- A estratégia é construída para a colaboração, e não para a competição
- Se aplica bem para turmas grandes (mais de 80 alunos)
- Como é uma estratégia que exige bastante empenho ativo dos alunos, eles costumam não gostar, A PRINCÍPIO.

Eu realmente achei instigante o método, embora não tenhamos tido a chance de desenvolver todos os passos pela falta de tempo. Aliás, esse me parece ser o grande problema dessa estratégia (como de todas as estratégias ativas de aprendizagem): TEMPO. É muito fácil sonhar com o mundo ideal, mas realizá-lo é outra história. O TBL precisa de muito tempo, e é o que menos se tem nos cursos de nível superior, especialmente naquelas escolas que cortam carga horária de disciplinas e docentes para enxugar gastos.

Para encerrar, o professor Polimeno passou um vídeo interessante que debate a modernização do ensino, com Alvin Toffler e esposa:




Fazendo um gancho com a questão do tempo aproveito para falar de um exemplo realista, que apresentei na mesa redonda da qual era participante (“Vestindo a tanga no elefante: conteúdo mínimo, carga horária mínima e a avaliação pelo júri (MEC)”).

Imagine que você tem 44 temas de uma ementa para cumprir em 12 dias, com uma carga horária de apenas 2 horas-aula. Inacreditável? Também acho. Mas isso é realidade em várias disciplinas de algumas universidades. O que fazer com isso? Digamos que vc resolve cortar o número de temas da ementa pela metade: 22. E digamos que vc consiga reunir temas afins para serem tratados no mesmo processo. Com otimismo, talvez fosse possível condensar esses 22 temas selecionados em 7 grandes temas. Cada grande tema necessitaria 5 horas para ser abordado. Pois digamos que fosse possível abordá-los em 4 horas. Levaríamos duas semanas por grande tema. Nem assim conseguiríamos abordar a metade do que foi colocado na ementa! Como disse o professor Polimeno, por isso talvez fosse melhor adotar o sistema de COMPETÊNCIAS e não de CONTEÚDO. Minha dúvida é se o sistema de competências não traria um grau grande demais de subjetividade. E, de qualquer maneira, quando falta pão (tempo), todos brigam e ninguém tem razão. Será que essa carga horária espremida não iria ser fatal também para um sistema de competências?

Coloquei no meu site a uma bibliografia inspiradora para o tema em questão: http://www.microbiologia.vet.br/vestindo_a_tanga_no_elefante.pdf

2. Outra atividade que merece destaque foi a palestra “A aplicação eficiente da tecnologia no contexto atual do ensino-aprendizagem”, do prof. Cesar Augusto Amaral Nunes, Diretor da OORT Tecnologia e Pesquisador associado ao Núcleo de Pesquisas em Inovação Curricular da Faculdade de Educação da USP. É muito difícil traduzir a sua palestra em um texto simples, mas ele mostrou o EDMODO (www.edmodo.com), uma “rede social” voltada para uso educacional que permite fazer um registro da participação dos alunos. Com isso, temos a geração de produtos intermediários que nos permitem avaliar a aprendizagem e criar uma espécie de “sala de aula expandida”. Ele falou também do uso EM TEMPO REAL de laptops, tablets e celulares (mas para isso seria necessário WiFi nas salas, coisa incomum na maioria das escolas). E algo interessante: destacou a questão da falta de tempo e maneiras de não se levar trabalho para casa usando tecnologia em tempo real.

Professor César Nunes

Professor César Nunes

Eu gostaria de usar o EDMODO, mas sem WiFi fica difícil. Uma pena. Em muitas escolas não existe Wi-Fi. Quando dou aula, preciso fazer uso da conexão do MEU celular para acessar a Internet. A justificativa de que podemos fazer uma reserva dos computadores da biblioteca esbarra em problemas elementares: se eu quiser usar a Internet em TODA aula terei que fazer uma reserva toda semana e rezar para que nenhum outro professor queira usar a Internet. Afora a evidente e desnecessária burocracia, esse sistema é impraticável com mais de um professor querendo usar a rede. Uma vez me queixei e recebi a justificativa assombrosa de que os próprios professores não queriam WiFi na sala de aula! Acho inacreditável que algum professor tenha uma posição tão contraproducente. Tão inacreditável quanto aquela espremida carga horária lá do começo do texto.