Inspirações

__________ Um livro pode mudar a sua vida?

__________ Sim, pode, porque ele pode transformar a forma como você vê e compreende o mundo. Às vezes de forma profunda. Carrego alguns testemunhos pessoais aqui comigo, e torço para que eles sirvam de inspiração aos meus alunos – assim como muitos alunos nos inspiram (esta postagem nasceu de uma mensagem da Sandra Rosado e da paixão por livros da Helena di Creddo).
morcego
__________ Sem rodeios, meu maior “testemunho”: O ANIMAL MORAL, de Robert Wright, lido em 1996. É bom que se diga que nem de longe ele é o grande livro da psicologia evolucionista, mas foi o primeiro, e significou um ponto de inflexão para a minha vida. Gostoso de ler, trata do funcionamento da mente humana e da origem da engenharia biológica que a produziu. Dá pra ver a vida do mesmo jeito depois dele? Impossível. A existência ficou mais alegre e feliz?

o_animal_moral

__________ Não. Descobrir a verdade não implica em descobrir a felicidade (frequentemente significa o inverso). Mas para os que têm essa ânsia de saber de forma atávica e involuntária, não há botão liga/desliga; o jeito é compreender a marcha e seguir em frente. No entanto, há quem não goste desse percurso. Uma vez uma aluna empolgada seguiu minha dica de leitura e começou a ler O MUNDO ASSOMBRADO PELOS DEMÔNIOS, do Carl Sagan (meu grande livro de cabeceira, outra leitura transformadora).

o_mundo_assombrado

__________ A menina acabou confessando que estava deprimida por causa do livro. Não faço ideia se ela o terminou ou se deu cabo dele num triturador de papel (uma morte infame, sem dúvida), mas o fato é que existem livros que não são para frouxos (parafraseando Harrison Ford).

__________ Desde a época do ANIMAL MORAL li pencas de livros da mesma temática, alguns geniais, mas aí era reforço, reforma, acréscimo. Nenhum arrebentou a porteira como o livro do Wright (que hoje nem considero o melhor). Passei anos sem ter a mesma sensação de descoberta revolucionária. Até que… veio o ano de 2013 (sim, “apenas” 17 anos se passaram para encontrar outro livro candidato a ponto de inflexão). E começou de forma banal. Achei o livro apenas interessante quando o vi nas prateleiras da Martins Fontes: RÁPIDO E DEVAGAR: DUAS FORMAS DE PENSAR, do Daniel Kahneman. Muita coisa dele nem é propriamente novidade, pois já havia aparecido em outros livros. A diferença é a teorização de inconsciente e a profundidade com que Kahneman aborda o funcionamento da mente humana. Um sujeito que ganha o Nobel de economia sem ser economista tem, de fato, alguma coisa interessante para falar. Eis um “aperitivo” sobre o livro: nosso cérebro tem um fenômeno chamado de priming, onde um estímulo, de forma associativa, evoca especificamente certas ideias inconscientes. Parece bobo? Pois o priming não se restringe a conceitos e palavras. rapido_devagarVeja esse perturbador experimento: grupos de estudantes tiveram que montar frases com uma pequena lista de palavras desconexas. O grupo controle recebeu uma lista com palavras escolhidas aleatoriamente; outro grupo recebeu uma listagem que, de maneira propositada, tinha palavras associadas à velhice, embora de forma indireta (grisalho, esquecido, careca, ruga, etc.). Depois de cada grupo montar as frases, eles foram encaminhados a outro laboratório, em outro prédio. O grupo que trabalhou com palavras relacionadas à velhice demorou mais tempo para chegar ao segundo laboratório (tudo fundamentado estatisticamente). Segundo os pesquisadores, as palavras relacionadas à velhice evocaram de forma inconsciente um traço do comportamento de idosos, o caminhar lento. Isso sem os estudantes se darem conta! Esse fenômeno de uma ideia influenciando uma ação inconsciente é conhecido como efeito ideomotor. Da mesma forma, alunos que viam cartuns enquanto tinham que segurar um lápis entre os dentes (forçando o sorriso de forma apenas motora) achavam os cartuns mais engraçados do que aqueles que eram orientados a franzir o rosto (atitude de concentração e seriedade). Uma coisa aparentemente desconexa influenciando de forma profunda nossas emoções e pensamentos. Novidade? Não totalmente, mas não lembro de uma descrição tão apurada e com a fundamentação científica que encontrei no livro do Kahneman.

__________ Talvez valha a pena fazer uma careta de profunda reflexão durante a sua próxima prova de imunologia.

peixe_gordo