Complexo Maior de Histocompatibilidade (MHC): mostrando a aplicação das ciências básicas

__________Quando se ministram disciplinas básicas (microbiologia, imunologia, parasitologia, bioquímica, farmacologia, etc.), um dos grandes desafios do professor é mostrar a aplicação de tudo isso. É um ponto fundamental para manter a motivação dos alunos e monstrengofazer uma integração entre a parte básica e a aplicada. Se isso não acontece, já reparei que os alunos se desestimulam e passam a enxergar a matéria como um fardo a ser carregado ou um “pedágio” necessário para se chegar ao final do curso.

__________Ao mesmo tempo, vários alunos que parecem ter “inapetência intelectual” desprezam as disciplinas básicas independente de sua importância ou da forma como são ministradas, achando que já nasceram profissionais formados que sabem exatamente o que precisam dominar de conhecimento. Para esse pessoal, fica a dica: os maiores e mais interessantes avanços na área médica e veterinária tem ocorrido justamente em pesquisa básica. As técnicas moleculares que permitem achar criminosos na medicina forense ou fazer diagnósticos rápidos e certeiros de viroses como o ebola nasceram de pesquisa básica.

__________Entender essas ciências está sendo, mais do que nunca, o diferencial entre um profissional medíocre e raso e um profissional atualizado e competente, capaz de resolver problemas importantes. Façam suas escolhas…

__________Nesse contexto, a IMUNOLOGIA é um campo interessantíssimo. Tomo como exemplo para esta postagem minha aula de MHC (Complexo Maior de Histocompatibilidade). É uma das aulas que mais gosto na Imuno, e sempre tento fazer pontes entre ela e aplicações relevantes, como transplantes e compatibilidade tecidual, resistência às doenças, extinção de espécies. Mas como ando sentindo falta de reforçar essa ligação, tive a ideia de trazer exemplos palpáveis de aplicação. Fui em busca desses exemplos e consegui alguns que aliam modernidade e didatismo. Antes, um alerta: todos os textos que vou mostrar aqui são facilmente acessíveis através do PubMed (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed), mas estão em INGLÊS. Muita gente entra num estado de chororô convulsivo quando vê um texto em inglês, gemendo e reclamando copiosamente. Se metade dessa energia usada para se vitimizar fosse direcionada para aprender o idioma em questão, não haveria mais problema para esse indivíduo e o aprendizado dele daria um fabuloso salto qualitativo. Nem preciso dizer que o domínio elementar da língua inglesa é o passaporte para ser um profissional atualizado, valorizado pelo mercado e integrado à comunidade científica e profissional. Mas vamos ao assunto…

__________Um primeiro exemplo de aplicação vem de uma doença importante tanto na veterinária quanto na medicina humana, a TUBERCULOSE:

MHC 6

__________Esse trecho do artigo trata de uma das coisas mais importantes relacionadas ao MHC, que é a sua propriedade de condicionar a resistência às doenças infecciosas. Reparem que há populações particularmente vulneráveis à tuberculose (como alguns índios amazônicos) e essa vulnerabilidade é explicada pelos alelos de MHC portados por essas populações; coisa semelhante parece acontecer na lepra. Acho providencial este exemplo, porque ele ajuda a elucidar aqueles fenômenos de populações resistentes, que normalmente os alunos associam com a presença de memória imunológica, quando na verdade são o resultado de um processo demorado de seleção de alelos do MHC.


__________Outro exemplo bacana é este em relação às malassézias (Malassezia furfur em humanos e M. pachydermatis em animais):

MHC 3

__________Na tabela ao lado são listados os fatores que condicionam/predispõem à infecção por esse agente em neonatos (clique na imagem ao lado para ampliar a tabela). Entre eles, a BAIXA EXPRESSÃO DE ALELOS HLA-DR. Neste ponto, aproveito para relembrar os genes do MHC: HLA-A, HLA-B, HLA-C, HLA-DP, HLA-DQ, HLA-DR – não trato aqui das variantes cadeia alfa e beta.


__________Neste artigo aqui temos uma variação do tema: indivíduos portadores do alelo HLA-B27 são mais suscetíveis a uma forma MHC 4
grave de infecção por Yersinia enterocolitica que envolve uma artrite não supurativa. Ótimo momento para lembrar a incrível quantidade de alelos do MHC, sua característica mais peculiar:
MHC 8










__________Já este artigo trata de uma doença muito importante, a febre tifóide por Salmonella typhi, e MHC 5
correlaciona um padrão de alelos com a suscetibilidade a essa doença ou a resistência a ela. Imagino que para muitos essa profusão de siglas deve ser assustadora – e é. Mas nada que um pouco de disciplina e esforço não consigam transformar em algo familiar. Eu disse um pouco?…





__________Outra correlação muito interessante é entre a dengue hemorrágica (DHF) e padrões de alelos. Muito curioso MHC 7observar que no Haiti, apesar das precárias condições sanitárias e pobreza geral, além de uma hiperendemia de dengue, não há relatos de dengue hemorrágica! Tudo graças ao padrão de alelos de MHC que prevalece nesse país.









FECHAMENTO: Talvez muitos estejam tendo dificuldade de ver a aplicação do tema, mas creio que está claro que, se no futuro tivermos a) uma prova rápida, precisa e barata para sequenciar os genes do MHC para cada indivíduo (humano ou animal) e b) um conjunto de dados confiável que faça correlações precisas entre determinado alelo ou conjunto de alelos e determinadas doenças, passaremos a ter uma abordagem inédita das doenças infecciosas, com a individualização de tratamentos e medidas preventivas, além de certamente facilitarmos uma série de diagnósticos. Hoje lidamos com o paciente de forma PADRONIZADA, porque é impossível saber exatamente suas características individuais de reação imunológica, flutuação hormonal, fisiologia peculiar, farmacocinética e outras tantas. No futuro, creio que olharemos para trás e vamos ficar espantados com a precariedade de se lidar assim com as doenças. Vai nos parecer coisa “pré-histórica”. E esse futuro está bem próximo. Por isso, gostaria muito que os meus alunos compreendessem em profundidade esta aula e todas as implicações dela para a prática clínica.